O longa Carlota Joaquina de Carla Camurati usa os anos da permanência da corte portuguesa no Brasil como pano de fundo para contar as desventuras amorosas e as ambições políticas frustradas da princesa Carlota de Bourbon, esposa de Don João VI . O tom carregado de sátira e caricatura é justificado pelo fato de que tudo é contado quase duzentos anos depois através da imaginação da menina escocesa Yolanda (Ludmila Dayer, que também interpreta Carlota quando criança). O retrato que o filme faz da jovem princesa espanhola Carlota é o de uma criança brilhante e de personalidade muito forte que em 1785, aos 11 anos, é mandada a Portugal para casar com o príncipe D. João de Bragança, mostrado como bobalhão, mimado e glutão. Nessa parte da película começa a sensação de estranheza, a corte de Portugal é representada com cores escuras, a atmosfera é depressiva, quase mórbida, os costumes são grosseiros contrastando com a sofisticada, colorida e feliz corte espanhola na qual as pessoas parecem festejar e dançar flamenco o tempo todo.
D. João (Marco Nanini) torna-se príncipe regente em 1792, depois de declarada a doença mental de sua mãe Dona Maria I. Em 1808, para escapar das ameaças de Napoleão Bonaparte, que pressionava Portugal a romper laços com o reino britânico, D. João transfere a corte de Portugal para o Brasil; a maior parte do filme conta esse período.
Durante a permanência no Brasil, a figura de Carlota Joaquina vai ganhando contornos cada vez mais caricaturais, a criança inteligente torna-se uma mulher ninfomaníaca, histérica, ambiciosa, invejosa, mão de vaca e homicida, desprovida de todas as qualidades que mostrava no começo do filme. A ótima atriz Marieta Severo faz o possível para extrair alguma humanidade da Carlota Joaquina que o texto do filme recria de forma grotesca.
Os brasileiros também são satirizados como puxa-sacos e aproveitadores que servem aos caprichos da corte portuguesa em troca de migalhas e falsos títulos de nobreza.
D. João é o personagem mais bem desenvolvido, no início bobo e amedrontado pelas responsabilidades que é obrigado a assumir, ele vai aprendendo a manejar as estruturas do poder e, em vários momentos, demonstra calma e sagacidade para lidar com situações políticas difíceis e afastar os amantes de sua esposa; o roteiro não deixa de mostrar o famoso desleixo que ele tinha com a aparência e a higiene, além do apetite voraz pelas frutas que encontrou em seu refúgio tropical.
A fotografia de Breno Silveira e a direção de arte de Tadeu Burgos e Emília Duncan são bastante competentes e criativas, levando-se em conta as restrições de orçamento da produção.
Carlota Joaquina foi sucesso de bilheteria e marcou a retomada da produção nacional de cinema; o tom de crítica e até de ressentimento em relação ao poder não é por acaso, afinal, algum tempo antes, o cinema brasileiro havia sido duramente atingido pelas medidas desastradas do governo Collor para conter a inflação. O filme tem momentos hilariantes e quase surreais, é uma sátira carnavalesca sem muita preocupação com precisão histórica e fidelidade biográfica em relação a seus personagens.
FICHA TÉCNICA
Gênero: Comédia
Duração: 100 min
Ano de lançamento: 1995
Direção: Carla Camurati
Roteiro: Carla Camurati, Melanie Dimantas e Angus Mitchell
Trilha sonora: André Abujanra
Breno Silveira
Tadeu Burgos e Emília Duncan
Elenco
Marieta Severo (Carlota Joaquina de Bourbon)
Marco Nanini (Dom João VI de Bragança)
Ludmila Dayer (Yolanda / Carlota Joaquina criança)
Maria Fernanda (Rainha D. Maria I)
Antônio Abujamra (Supostamente, o conde de Mata-Porcos)
Eliana Fonseca (Custódia)
Marcos Palmeira (D. Pedro I)
Beth Goulart (Princesa Maria Teresa de Bragança)
Norton Nascimento (Fernando Leão)
Romeu Evaristo (Felisbindo)
Bel Kutner (Francisca)
Aldo Leite (Lobato)
Chris Hieatt (Lorde Strangford)
Maria Ceiça (Gertrudes)
Trailer
Colaborador
O autor do artigo, Marcos Noriega, faz parte da equipe do site Cine Masmorra








Que legal que vocês publicaram um artigo sobre este filme, assisti recentemente, depois de ouvir o podcast sobre a família real no Brasil, e gostei muito mesmo, junto com Desmundo, que também já teve artigo aqui.
Muito bom o artigo, parabéns.
Legal, muito boa essa produção brazuka.
Abraços e Avante Piratas!