Análise Histórica

1 de junho de 2011

Cinema e História: Desmundo

Filmes Históricos: DesmundoEm 1570 uma embarcação vinda de Portugal chega à Terra de Santa Cruz, como era chamado o Brasil na época; a caravela trazia, entre outras coisas, um grupo de moças de diferentes idades, órfãs, recolhidas de conventos por ordem do rei e a pedido dos jesuítas da colônia, para serem dadas em casamento a alguns colonos que estavam em perigo de se entregar ao pecado e que possuíam recursos suficientes para pagar o dote a uma intermediária (Beatriz Segall). Uma das jovens, muito religiosa, de nome Oribela (Simone Spoladore), após recusar o primeiro pretendente e sob ameaça de sofrer castigos violentos, acaba se casando com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado, em uma interpretação excepcional) , rude e autoritário dono de engenho de açúcar que vive com a mãe (Berta Zemel) e a irmã, deficiente mental e possivelmente fruto de uma ligação incestuosa .

Oribela passa a viver um inferno, oprimida por Francisco e sua mãe, vítima de torturas físicas e psicológicas, obrigada a ceder às investidas sexuais do homem por quem sente repulsa e vivendo como uma prisioneira, ela por duas vezes tenta fugir do engenho e planeja conseguir ajuda de um marrano – judeu convertido ao catolicismo – negociante de escravos indígenas, chamado Ximeno Dias (Caco Ciocler), para se esconder do marido que a persegue e embarcar em uma nau de volta a o reino português.

Desmundo é a competente transposição para as telas do romance de Ana Miranda; como no livro, o diretor Alain Fresnot optou por manter os diálogos em português quinhentista ; o filme é visto com legendas em linguagem atual. A fotografia de Pedro Farkas consegue reproduzir a iluminação à base de velas dos rústicos interiores, criando composições que são verdadeiras pinturas. A reconstituição de época é feita de forma simples e eficiente, com destaque para a ótima pesquisa de figurinos realizada por Marjorie Gueller.

A trágica história de Oribela reflete a situação da mulher no Brasil colonial e revela a natureza das relações sociais e o papel da igreja e do indígena naquela sociedade em formação.

Outro destaque positivo são as atuações de Osmar Prado e Simone Spoladore, ambos vivem seus personagens com grande competência e paixão garantindo uma alta temperatura dramática ao longa. O roteiro, escrito por Sabina Anzuategui e Alain Fresnot, deixou de fora uma boa parte da carga de erotismo presente no livro e os personagens perderam um pouco de sua complexidade original, ainda assim, Desmundo é um filme altamente recomendável e uma excelente aula audiovisual de história.

Ficha Técnica

Gênero:Drama
Duração:100 min
Ano de lançamento: 2003
Estúdio: Columbia Pictures do Brasil
Direção: Alain Fresnot
Roteiro: Sabina Anzuategui e Alain Fresnot, baseado em livro de Ana Miranda
Produção: Van Fresnot
Música: John Neschling
Fotografia: Pedro Farkas
Direção de arte: Adrian Cooper e Chico Andrade
Figurino: Marjorie Gueller
Edição: Júnior Carone, Mayalu Oliveira e Alain Fresnot

Elenco

Simone Spoladore (Oribela)
Osmar Prado (Francisco de Albuquerque)
Caco Ciocler (Ximeno Dias)
Berta Zemei (Dona Branca)
Beatriz Segall (Dona Brites)
José Eduardo (Governador)
Débora Olivieri (Maria)
José Rubens Chachá (João Couto)
Cacá Rosset (Afonso Soares D’Aragão)
Giovanna Borghi (Bernardinha)
Laís Marques (Giralda)
Arrigo Barnabé (Músico)

Trailer

Prêmios

Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro 2004 (Brasil)
Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Melhor Direção de Arte.

Festival de Cinema Brasileiro de Paris (França)
Melhor Filme.

Festival de Brasília 2002 (Brasil)
Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz Coadjuvante (Berta Zemel).

Prêmio ABC de Cinematografia 2004 (Brasil)
Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia de Longa-metragem.

Troféu APCA 2004 (Brasil)
Melhor Atriz (Simone Spoladore).

FesTróia – Festival Internacional de Cinema de Tróia 2003 (Portugal)
Melhor Fotografia.

Colaborador

O autor do artigo, Marcos Noriega, faz parte da equipe do site Cine Masmorra
Cine Masmorra

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Sobre o autor deste post

Marcos Noriega
Marcos Noriega é cinéfilo, faz parte da equipe do site Cine Masmorra e escreve sobre cinema para o Histórica.




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4 Comentários


  1. Já possuia o filme em casa, mas por alguma razão nunca assisti (Assim como tb tenho o DVD de OLGA e nunca vi).

    A indicação realmente me motivou a assistir o filme, pretendo assistir ainda hoje!

    Obrigado!


  2. Então Noriega, eu estava lembrando aqui, enquanto ouvia o Podcast, tem um filme muito bom chamado A Missão.

    Já vemos um pouco mais sobre a preocupação na fronteira Brasil, Argentina e Paraguai. Onde mostra um pouco da disputa por terras, onde a igreja se mostrou estar no meio, devido ao trabalho que os Jesuítas faziam nas missões.

    Filmaço, vale a pena conferir também!


  3. Sempre me intereço mais por livros do que por filmes, porem se eu não achar este livro para ler vou com certeza ver o filme, tenho um grande pé atrás com filmes nacionais, vamos ver se este me faz apaixonar…abraços


  4. Parabéns, Marcos, o artigo me convenceu a assistir o filme e sua descrição é bem coerente com a impressão que tive depois de assistir.



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