Sobre Capitanias Hereditárias e pesquisas
Vocês, queridos leitores que já concluíram seus estudos no colégio/ensino médio, se lembram das nossas Capitanias Hereditárias? Ou passou as aulas de História olhando pela janela? Vamos refrescar a memória! A Wikipedia define Capitanias Hereditárias como “… uma forma de administração territorial do império português uma vez que a Coroa, com recursos limitados, delegou a tarefa de colonização e exploração de determinadas áreas a particulares, através da doação de lotes de terra”, mas, como os leitores assíduos do Histórica bem sabem, a História nunca é bem contada, ou, para sermos justos, nunca é totalmente contada, então é sempre bom (e recomendável) pesquisar a respeito dos assuntos para não cair na superficialidade que inunda a internet e, cada vez mais, se torna um padrão de pseudo-conhecimento para os menos ligados ao hábito de pesquisar e checar a veracidade dos fatos.
Esse período, tão importante para a História do Brasil, merece um registro detalhado e que sirva como fonte de pesquisa para os que não suportam a entediante linguagem acadêmica, mas também não aguentam mais saber “meio assunto” e buscam aprofundar seu conhecimento sobre os eventos que, de certa forma, transformaram o mapa da América do Sul a favor dos portugueses e os forçaram a descobrir o Brasil de verdade.
Sobre o livro
Em minha busca por tal documento, encontrei Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores, terceiro volume da coleção Terra Brasilis, do jornalista e escritor Eduardo Bueno, publicado em 2006 pela Editora Objetiva.
Em sua obra, Bueno consegue prender o leitor mesmo em meio ao emaranhado de nomes, datas e eventos que é a época do início da colonização do Brasil. Supondo que o leitor se lembre com precisão atômica do que aprendeu, ou está aprendendo, na escola, não é exagero afirmar que muitas serão as passagens que vão gerar surpresa pelo inesperado e revolta pelo absurdo dos fatos. Esses, os fatos, são sempre apresentados com riqueza de detalhes e sem a tradicional omissão de “pequenos acontecimentos” como, só para exemplificar, os europeus que eram mortos pelos nativos. Todos os eventos abordados são muito bem explorados e os personagens que deles tomam parte tem suas ações e intenções narradas com base em documentos históricos que são citados ou, em certos casos, transcritos do texto original, dando ao leitor a exata noção do que tratavam tais registros.
O livro cobre o período entre 1530 e 1550, aproximadamente, quando a coroa real de Portugal decidiu “oficialmente” colonizar o Brasil que, até então, era um pedaço de terra semi-abandonado aonde os navios vinham buscar madeira, peles e outros itens que seriam comercializados posteriormente. Mas, além de tentar evitar o avanço francês sobre seus domínios e seu valioso santuário de madeira, Portugal tinha outros interesses. Tais interesses, muito “menos oficiais” do que os registrados oficialmente, seriam, entre outros, a demarcação de suas terras para tentar dar uma “esticadinha” no território que era seu por direito (?!), até o Rio da Prata, desrespeitando deliberadamente o Tratado de Tordesilhas. O grande interesse era movido pela lenda do Rei Branco e suas incontáveis fortunas em ouro e prata. Em tempo: O Rei Branco existia no mundo real, se tratava do Imperador Inca, fadado a ficar esmagado entre espanhóis e portugueses.
O leitor se sentirá à vontade ao notar que, sempre que cita algum local, o autor toma o cuidado de fazer a referência geográfica de onde se situa esse local no mundo de hoje, fazendo a imaginação voar longe, imaginando cidades como São Paulo, tomadas por mata fechada e tribos nativas. Por sinal, os nativos (Índios) tem papel fundamental no processo de colonização e, ao contrário do que seu livro de História da escola possa dizer, não eram apenas fantoches e depois escravos nas mãos dos europeus. As alianças e inimizades entre homens brancos e nativos tiveram grande influência no processo e não são deixadas de lado durante a narrativa.
Capitães do Brasil não trata apenas das Capitanias Hereditárias, mas de todo um período no qual o Brasil foi inundado por alguns colonizadores, vários interesseiros e muitos, muitos criminosos degredados que vieram “fazer número” por aqui. Trata também, de maneira inteligível até mesmo para os mais leigos no assunto, das manobras políticas e militares de Portugal para defender suas terras de exploradores e aproveitadores de ocasião, afinal de contas, seriam os próprios portugueses quem iriam adotar este comportamento.
O que mais fascina durante a leitura é notar que, apesar da narrativa amigável e simples, o autor nunca deixa de dar a informação com o maior número de detalhes possível, citando fontes valiosas como o diário de Pero Lopes. E o leitor ainda fica por dentro de fatos que não fazem parte da cronologia, pois Bueno recheia o livro com notas de canto de página, nunca deixando um assunto em aberto.
Então, mesmo que você se lembre bem do que aprendeu na escola, saiba que aquilo não corresponde nem a décima parte da História do início da colonização. A leitura de Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores aprofundará, de forma sensível, seu conhecimento sobre os personagens e eventos que, às vezes, por serem tão absurdos, chegam a parecer mais estória do que História, fazendo o leitor acreditar que o nome do livro poderia muito bem ser As Loucas Aventuras de Martim Afonso e sua Turma!
Deixando as brincadeiras de lado, Capitães do Brasil é um livro em perfeita sintonia com o trabalho que desenvolvemos aqui no Histórica, trazendo luz aos pontos que sempre ficam obscurecidos pelo tal superficialismo do ensino e, em nível alarmante, da internet quase como um todo.
Ficha Técnica
Título: Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores
Autor: Eduardo Bueno
Publicado em: 2006
Editora: Objetiva
Páginas: 256
ISBN: 8573028211




