Análise
1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil
Um imperador com reputação de invencível ceifador de cabeças de monarcas. Um exército faminto e maltrapilho que invade um país sem trocar um tiro. Uma rainha louca, atormentada por visões do fantasma do pai e perseguida por demônios. Um príncipe medroso, gordo, sujo, indeciso e bonachão que se torna o único a conseguir enganar um dos maiores líderes militares da história. Uma princesa feia, manca, geniosa e conspiradora. Viajantes que se dividem entre a fascinação e o asco por uma terra completamente nova a seus olhos. Um povo que se vê da noite para o dia entregue à própria sorte. Uma colônia tropical que da noite para o dia torna-se metrópole. Um arquivista preconceituoso que se transforma em um apaixonado pelo Brasil.
Estes são os principais personagens de “1808”, obra de Laurentino Gomes que abrange da fuga atabalhoada da Família Real portuguesa para as terras brasileiras à melancólica despedida do único monarca europeu a visitar e reinar em uma colônia americana. A obra, composta por 29 irresistíveis capítulos, transporta-nos a um tempo em que tudo parece estar do avesso: reis perdendo a cabeça; tropas esfarrapadas que botam uma corte inteira para correr (ou navegar); coroação de um europeu em uma cidade sul-americana de 60.000 pessoas sem o menor refino nos costumes.
Embarque da Família Real Portuguesa para o Brasil, com sua corte e nobreza, em 1808
A princípio, parece mais do mesmo. Porém, Laurentino Gomes vai muito além da história oficial. Mostra o “molejo” do jogo duplo que João VI faz para enrolar franceses e ingleses simultaneamente, ganhando tempo para o seu característico hábito de tomar decisões relutantemente no último minuto sobre qualquer assunto. Esmiúça o momento de tensão e incerteza vivido pelos nobres da Europa, capaz de enlouquecer (ou ajudar a enlouquecer ainda mais) o rei George III da Inglaterra e a rainha Maria I de Portugal. Há ainda revelações ainda mais intrigantes, como o fato de a ideia de transferência da corte portuguesa para o Brasil ser quase tão antiga quanto o Império Português. Você sabia que a esquadra de João VI fez escala em Salvador por ordens estratégicas do príncipe regente, e não por acaso?
Dom João VI, o homem que enganou Napoleão
Compartilhamos a angústia e desespero de quem fica e vê o próprio país ficando acéfalo bem à frente de seus olhos. Dividimos a tristeza e choque de quem vai, sofrendo exílio forçado em terras desconhecidas, abandonando a pátria às mãos estrangeiras. Somos levados a viajar junto com a Família Real nas pútridas e mal conservadas naus portuguesas, escoltados pela “tropa de elite” inglesa, composta pelas maiores celebridades militares britânicas da época. Deslumbramo-nos com a paisagem paradisíaca da Baía de Guanabara, desembarcamos no Rio de Janeiro colonial e somos convidados a um tour pelas ruas estreitas e insalubres da cidade, sempre tomando cuidado com os dejetos que voam pelas janelas e as catarradas das moças cariocas de bem.
Laurentino Gomes nos garante assento privilegiado na cerimônia de coroação de D. João VI. Pelos olhos de viajantes ingleses e franceses, e dos quase caricaturais Padre Perereca e o arquivista real Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, somos brindados com cada detalhe daqueles estranhos anos de residência de João VI no Brasil, seja do ponto de vista de quem já está aqui e é presenteado com todo este espetáculo inédito na América, seja pela perspectiva de quem vem de lá e tem de lidar da forma que pode com o gigante choque de culturas. Ao invés de uma história só da Família Real, ou só de Portugal, ou só dos brasileiros ou dos cariocas, “1808” é um caleidoscópio historiográfico, onde todas as pequenas partes do todo possuem participação essencial, cada qual à sua maneira, deste retrato quase cinematográfico dos anos 1808-1821 em Portugal e Brasil.
Em certos momentos, tanto cuidado do autor na pintura deste quadro parece beirar à fofoca histórica. Ora, que seja fofoca histórica então. Fato é que, queiramos nós ou não (pior para a turma viciada em academicismo e estrelismo pseudo-intelectual), esta obra do jornalista Laurentino Gomes já nasceu um clássico e leitura obrigatória para leigos, estudantes e historiadores interessados no tema.
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Acabei de ler hoje o livro. Muito bom. Talvez alguns não gostem pois não é narrado ou há a presença direta de algum personagem de nos dê a identificação com o momento, mas a pesquisa e trabalho de retalhar os diversos documentos e tentar extrair a história, sem soberbas ou passionalidade, dá a dimensão de quão jovem é o Brasil e tudo o que vivemos ainda são ecos de um passado mal resolvido mas que mostra o caminho da nação poderosa que podemos ser. Agora rumo a ler 1822 e na expectativa do lançamento de 1889.
Quando é que vai acabar a vagabundagem e lançar um novo cast? ai vai uma ideia, fala sobre a estrada real, caminho velho e o novo, vamos trabalhar
na verdade só sai programa novo quando voltar a vagabundagem (: por enquanto estou ocupado