Análise

Assim que recebi o exemplar deste livro que o Gabriel, editor-chefe do Histórica, me enviou, confesso que fui tomado por um preconceito quanto ao tema em si, uma vez que deduzi o quão específico seria o dito cujo e, consequentemente, o quão desinteressante seria para mim. Depois de concluída a leitura, não só o dito preconceito foi embora, como também passei a achar que classificar tal obra somente na área da História seria de uma injustiça tremenda.

Em 378 páginas, Ronaldo Vainfas (Doutor em História pela USP e atual professor titular da Federal Fluminense) escreve uma obra que abrange diversas áreas das ciências humanas, incluindo a antropologia; a sociologia; a historia geral e, em alguns aspectos, até a microhistória. Contar sobre o período em que o nordeste brasileiro ficou sob domínio holandês não é novidade, mas falar sobre os judeus que nele existiram e ainda com uma linguagem acessível ao grande público é algo realmente significativo.

Contudo, o autor não limita o seu recorte histórico somente ao período de ocupação holandesa no nordeste (1630-1654). Vainfas também incluiu em sua pesquisa todos os antecedentes que levaram à guerra entre a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos (Holanda) e a União Ibérica — Junção do reino de Portugal com o reino da Espanha, tendo Felipe II, monarca da Espanha, assumido o trono de ambos os reinos devido à ausência de um monarca português —, assim como também inclui as causas que levaram um grande número de judeus a se refugiarem na protestante Holanda.

Também é relatado em detalhes o grande esforço que estes indivíduos tiveram para tentar recuperar um pouco do que restara de sua cultura, perseguida e destruída nas fogueiras da inquisição católica. Tal esforço se dava não somente na tentativa de trazer de volta os judeus que haviam se convertido ao catolicismo através do medo das monarquias leais a Roma, mas também nas rixas internas entre subgrupos judaicos que clamavam possuir a “verdadeira forma de ser um judeu”.

A “Nova Holanda”, como era chamada a colônia holandesa nas terras tupiniquins, era sem sombra de dúvida atraente para os judeus que fugiam das perseguições católicas, uma vez que os holandeses possuíam uma política de tolerância religiosa e ainda teriam o terreno fértil para crescer economicamente. De fato, importantes rotas de comércio só foram possíveis devido à influência que eles possuíam.

Entre conflitos políticos e religiosos que duraram décadas, os judeus aparecem como importantes peças deste período conturbado da nossa história. Tal período me leva a lembrar de uma pergunta que um professor do ensino médio fez para toda turma: “E se os holandeses não tivessem sido expulsos das terras que conquistaram?”, logo respondi: “Acho que o senhor estaria dando esta aula em outra língua”.



Sobre o autor deste post

Rodrigo Barros
Rodrigo Barros cursa História pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) e é membro da Equipe Histórica