Análise

Ao se debruçar sobre a sua prática, o historiador busca observar, interpretar e dentro das possibilidades, reviver um período que o precede. Para tanto, este profissional utiliza diversas metodologias e técnicas características a esta ciência. Porém, ele não poderia fazer nada sem os documentos históricos. As fontes ou documentos históricos são as vozes que ecoam do passado. São eles que nos contam como as pessoas se vestiam, falavam, guerreavam e amavam. Em síntese, representam o elo entre a nossa civilização e outras de tempos longínquos. Podemos considerar como fontes históricas, retratos, peças de vestuários, documentos oficiais, utensílios de cozinha, biografias, enfim como dizia o notável historiador francês Fernand Braudel: “tudo aquilo que estiver impregnado com espírito humano”.

É exatamente nesta categoria (a de fonte histórica) que se enquadra o livro desta resenha: Minha mocidade de Winston Churchill. Trata-se da autobiografia sobre a juventude do maior ícone na história da política britânica.

Winston Churchill e seu “V da vitória”

A princípio o estimado leitor pode achar que uma autobiografia sobre a “mocidade” de um parlamentar inglês deve ser monótona. Engana-se. Primeiramente por Churchill ser um ótimo escritor, mas principalmente, por ser uma verdadeira fonte histórica. Por meio desta obra podemos perceber um mundo em transformação e como ele é representado por um homem que o vivenciou. Trata-se verdadeiramente de um documento histórico, em todas as características.

Nesta autobiografia, encontraremos muitos dos valores comuns as elites europeias. Em uma de suas inúmeras atividades militares a serviço da coroa britânica, mais precisamente em Surgham, Churchill se perguntava a respeito de um possível encontro com as tropas inimigas da seguinte maneira: “será que iremos encontrar milhares de selvagens ferozes?”.

É comum, ao longo das páginas, nos depararmos com alguns valores que hoje nos causam certo desconforto, mas que para o período eram comuns. É neste ponto que reside uma a maior riqueza da obra. Por meio desta percepção ainda muito impregnada de valores dos últimos anos do século dezenove (período este em que o jovem Churchill recebeu sua educação formal) é que podemos perceber algumas características de nosso passado recente.

Como toda fonte histórica, a obra de Churchill nos descortina um “novo mundo”, porém este mundo é limitado. Neste caso, apenas temos acesso aos momentos mais notáveis da sua juventude: a superação das dificuldades escolares (sim, até mesmo um dos mais notáveis políticos de nossa história tinha dificuldades na escola), a carreira militar e a sua entrada no parlamento inglês.

Winston Churchill aos sete anos de idade

São estes os acontecimentos que o autor deste documento histórico quer que saibamos. Trata-se de um relato de suas glórias e honras e por isso, uma compilação de fatos que intencionalmente deveriam ser associados a sua imagem. Enfim um documento histórico com todas as suas ambiguidades.

Recomendamos a leitura deste livro a todos aqueles que têm interesse em descobrir como é o oficio de um historiador. Leia-o criticamente, compare as suas informações e descubra a cada página elementos que influenciaram uma pessoa que por sua vez, influenciou a vida de milhões. Faça isto e terá uma ideia do que é em parte a árdua tarefa dos profissionais das ciências humanas. Caso você não deseja cumprir esta missão tão ambiciosa, tudo bem. A obra é surpreendentemente boa e com suas cargas de emoção, em especial nas narrativas das refregas militares, que traduzem bem as emoções do campo de batalha.



Sobre o autor deste post

Lucas Rosa
Lucas Rosa, mais conhecido nas rodinhas da malandragem Histórica como "Pe", é amante do bom e velho Blues, Professor de História e Orientador Educacional do Pearson Group