Os alpendres empregados nos adros de algumas capelas e igrejas brasileiras pareciam imitar as soluções aplicadas nas casas das fazendas, onde tinham a função de trazer conforto. Mas certamente a função social não era a mesma. Esse detalhe construtivo merece atenção por trazer-nos à reflexão de como um comportamento social influencia diretamente a arquitetura particular de uma região e sua maior ou menor comunicação com os grandes centros ou edificações próximas, num determinado período da produção arquitetônica do país.
A partir desse modelo construtivo, é possível traçar um elo entre as igrejas alpendradas e a basílica romana, onde o partido determinado pela disciplina eclesiástica exigia a separação de classes e castas, que eram distribuídas por diversas partes do corpo do adro semi-protegido durante as cerimônias.
Através da experiência de observar a forma com que o cristianismo foi trazido ao Brasil, podemos perceber que os alpendres nas igrejas, primeiramente difundidos na Espanha e em Portugal e mais tarde trazidos pra cá pelos colonos, tem, de fato, uma ligação muito mais forte com a basílica romana e seu caráter separatista do que com a varanda confortável da casa-grande, com suas influências nas moradias bandeiristas. Porém é necessário entender as diferenças entres os modelos rurais e os modelos urbanos, já que em toda regra há exceção, principalmente nas regras que tangem aos usos e costumes.
Dentro dos exemplos urbanos, é inquestionável a derivação direta dos moldes acima citados. O contexto nos mostra uma clara determinação para que fossem separados os catecúmenos, índios pagãos, dos outros já doutrinados. Essa era uma visão costumeira dos conquistadores do Novo Mundo, repleto de selvagens a serem integrados ao rebanho de Roma.
Igreja de São Miguel: Patrimônio histórico preservado pelo IPHAN
Para melhor exemplificar, vamos citar alguns exemplos do território paulista, onde temos a Igreja do Colégio, que teve no seu desenho original a composição de um alpendre, a Igreja Matriz, a do Carmo e a Igreja da Misericórdia. Com o passar dos anos e sucessivas reformas, justificando a decadência dessa prática litúrgica, os alpendres nessas construções começaram a sofrer alterações até desaparecer totalmente. Nesses moldes, nos sobrou apenas um único exemplo ainda construído e preservado como patrimônio histórico pelo IPHAN (Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que é a Igreja de São Miguel, localizada na periferia da zona leste paulistana, datada de 1622.
Ao contrário do que pode se imaginar em um raciocínio lógico, os modelos rurais sofreram influência dos desenhos urbanos, mas alguns simplesmente surgiram como soluções para situações particulares. Pressupõe-se, principalmente, o redescobrimento desse padrão nos setores rurais, pelo possível desconhecimento das questões carismáticas que envolviam o uso do alpendre. Admite-se, também, que seu uso era potencialmente alegórico, dando ares de maior dignidade ao santuário.
Capela Santo Angelo, em Mogi das Cruzes
Todas essas transformações se deram por variados motivos, tendo em vista que os templos católicos, além do lugar culto, serviam também a diferentes reuniões da comunidade. Portanto podemos supor que, em alguns casos, os alpendres poderiam servir mais como sala de reuniões para despretensiosas conversas do que como uma cancela social. Outro motivo, ainda tratando das igrejas rurais, eram as festas anuais que acabavam por abrigar romeiros, pondo fim a qualquer função não física para os alpendres. Como exemplo de igrejas alpendradas na zona rural, temos a Capela de Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes, e a Capela da Santa Cruz do Nosso Senhor Morto, localizada em Areias.
Capela de Santo Antônio, em São Roque
Sobre as construções situadas em propriedades particulares em São Paulo, temos mais dois exemplos: A Capela de Santo Antônio, nas redondezas de São Roque, e a Capela Nossa Senhora da Conceição, construídas por personalidades da sociedade bandeirista. Tais “igrejas particulares” tinham sua construção justificada, pois não bastava apenas a ascendência sobre o povo e a glória do proveito material, era necessário tratar dos bens espirituais para tornar a igreja agradecida, pois nunca se sabia a hora em que uma oferta poderia ser retribuída.





Sério.. não entendi.
Para que serviam estes alpendres além de diminuir a incidência do sol e proteger da chuva no período antes da missa, ou depois dela??
O texto dá a entender que tinha outro uso, mas não explicita que uso era este.
Escravos e índios não podiam entrar nas igrejas durante as missas, é isso?
Que uso tinha nas basílicas romanas que eram parecidos com os daqui?
Sim, você entendeu bem! A função dos alpendres, inicialmente, era puramente social, separando o “preto do branco”. Com o passar do tempo, eles foram perdendo essa, muito por desconhecimento da tradição por parte dos moradores dessas áreas.