Quem descobriu o Brasil?
Se você se lembra desta pergunta clássica do bê-á-bá escolar brasileiro, do tempo em que, na tenra infância, estudava com a nossa amada e saudosa Tia Cotinha no pré-histórico “primário” (hoje ensino fundamental), dirá que a resposta automática é: o navegador Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500, trazendo na carona o escrivão Pero Vaz de Caminha (o homem do “em se plantando, tudo dá”) e mais todo o “pré-sal” da sociedade portuguesa, e que aqui chegaram por acaso graças às temerosas calmarias. Coitada de Tia Cotinha: ela estava errada. Não é culpa dela, e veremos o porquê.
Tirando as famosas e teóricas visitas dos fenícios e chineses, das quais não possuímos (pelo menos, ainda) nenhuma evidência concreta de que realmente aconteceram, Cabral não foi o primeiro aventureiro do Velho Mundo a pisar em terras tupiniquins. “Ora, mas como isso é possível? Por que não está em nenhum livro de História? Estamos sendo enganados?”, o leitor me pergunta. Bem, há razões bem claras e convincentes para que Cabral permaneça levando a fama sem deitar na cama. Mas vamos começar do começo.
Mesmo o continente americano possui um “descobridor” puramente simbólico. Muito antes de Cristóvão Colombo convencer Isabel I e Fernando II de que o mundo não acaba no horizonte, os nórdicos já haviam “descoberto” a América, liderados por Erik o Vermelho, tendo conhecido a Groenlândia, por volta do ano de 982 – seu filho, o lendário Leif Erikson, chegou até o nordeste do atual Canadá alguns anos depois. Fato é que a existência de terras além do Atlântico não era de todo desconhecida do Velho Mundo à época de Colombo.
Em 1424, sessenta e oito anos antes dos “descobrimentos” de Colombo, o cartógrafo veneziano Zuane Pizzigano já incluía em sua carta náutica quatro ilhas no Atlântico situadas próximas à região das Bahamas, entre elas Antilia (provavelmente, Porto Rico), inspirado na carta de Franciscus Pizzigano, que por sua vez se baseava em relatos muito mais anteriores sobre ilhas além-Atlântico. Antilia – de onde surgiu o nome “Antilhas”, usado para designar as ilhas do golfo do México –, assim como a costa da Flórida e uma Ixola Otinticha Xe Longa a Ponente 1500 mia (“uma ilha de verdade existe a 1500 milhas daqui [África Ocidental]”, o que pode ser uma referência ao Brasil), também aparece na carta de outro veneziano, Andrea Bianco, de 1448. Decerto, daí veio a errônea ideia de que o Brasil seria uma ilha, e por isso seu nome de batismo é curiosamente Ilha de Vera Cruz.
O espanhol Pero Vaz da Cunha, o “Bisagudo”, possuía um mapa provavelmente baseado na carta de Andrea Bianco. Quem atesta este fato é o físico e cirurgião Mestre João, integrante da expedição de Cabral ao Brasil, em 1º de maio de 1500:
“Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa antigo e ali achará Vossa Alteza escrita também a mina”.
Pode-se, dos próprios diários de bordo de Colombo, concluir que o mesmo sabia exatamente pra onde estava indo:
Quarta-feira, 24 de outubro de 1492 [descrevendo como chegar a Antilia]
“…devo rumar para oeste-sudoeste para chegar lá… e nas esferas que vi e nos desenhos do mapa mundial ela está nessa região”.
Em 1494, dois anos após Colombo chegar às Bahamas, já era assinada a carta de Tordesilhas, dividindo arbitrariamente o Novo Mundo entre as duas maiores potências marítimas da época: entre as assinaturas da carta, estava a de uma verdadeira celebridade portuguesa: a do navegador Duarte Pacheco Pereira, na “qualidade de contínuo da casa do senhor rei de Portugal”. Conhece? Não? Os portugueses conhecem.
Duarte Pacheco Pereira, nascido em 1460, era o “Fenômeno” português. Duarte Pacheco era de uma genialidade ímpar, e era idolatrado como um legítimo “pop star”. Conheça ou relembre alguns trechos do Canto X da obra epopeica Os Lusíadas, de Luís de Camões:
12
“E [a ninfa Tétis] canta como lá se embarcaria
Em Belém o remédio deste dano,
Sem saber o que em si ao mar traria,
O grão Pacheco, Aquiles Lusitano. (…)”.
15
“E todos outra vez desbaratando
Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
A grande multidão que irá matando
A todo Malabar terá admirado. (…)”
16
“(…) Fará que os seus, da vida pouco escassos,
Cometam o Pacheco, que tem asas, (…)”
Aos vinte e oito anos de idade, o lisboeta Duarte Pacheco já tinha ido à ilha do Príncipe, a segunda maior de São Tomé e Príncipe, onde ficou seriamente doente e só foi salvo por Bartolomeu Dias, que por ali passava em sua viagem de volta do Cabo da Boa Esperança. Aos trinta anos, Duarte Pacheco já era famoso como geógrafo, cosmógrafo e cavaleiro da Casa de D. João II. Foi nesta década de sua vida que ocorreu o evento costumeiramente comparado nos livros de história à chegada do homem à Lua, perpetrado por Colombo, o que acabou por acarretar em sua participação na assinatura da carta de Tordesilhas. Pode-se dizer que este acordo foi feito meio que “por trás dos panos”, já que, já nesta época, pairava no ar um sonho de uma futura união entre as casas de Portugal e Espanha; além disso, era senso comum que o sucesso náutico ibérico era visto com olhos de atenção e cobiça por franceses, ingleses, neerlandeses, belgas e muitos outros. O tratado chegou a gerar manifestações de desagrado, em especial por François I, rei de França.
É por isso que, tal qual um “James Bond” lusitano, Duarte Pacheco, homem de confiança de Manuel I, foi enviado em missão secreta, em 1498, com o objetivo de reconhecimento da parte da América cedida a Portugal pela carta de Tordesilhas. Quando o Aquiles Lusitano embarcou, partindo de Cabo Verde, o sete ou oito anos mais novo Pedro Álvares Cabral (ou Pedro Álvares de Gouveia, como ainda era seu nome na época – só adotara o sobrenome do pai em 1503, após a morte de seu irmão mais velho) jamais havia comandado uma esquadra sequer. No máximo, tinha ido como “moço fidalgo” ao Norte da África, como era comum aos jovens nobres de seu tempo. Cabral, rapaz culto e cortês, era mais um “gentleman” que propriamente um homem do mar.
Naquele mesmo ano de 1498, Duarte Pacheco passou pelo arquipélago de Fernando de Noronha, chegando próximo à costa do nordeste brasileiro e seguindo em direção à ilha de Marajó. E Cabral ainda não seria o próximo da fila: antes dele, em 1499, passaram pela foz do Amazonas o florentino Américo Vespúcio e os espanhóis Vincente Yáñez Pinzón (capitão da Niña, uma das caravelas da expedição “descobridora” de Colombo) e seu primo Diego de Lepe.
Cabral foi nomeado por Manuel I capitão-mor de uma armada em 15 de fevereiro de 1500, não por sua experiência (que era nenhuma) ou alguma habilidade específica, mas por ser de uma importante família nobre, como se fazia de costume. Sequer a missão principal da frota de Cabral era o “achamento” das terras brasileiras: Cabral partiu ao mar em 9 de março de 1500, ao meio-dia, com a clara missão de refazer o trajeto completado por Vasco da Gama seis meses antes, de quem inclusive recebeu orientações e mais a ajuda de dois de seus subordinados, Nicolau Coelho e Pêro Escobar, fora a companhia de nada menos que Bartolomeu Dias, outra grande celebridade da época por ter dobrado o Cabo das Tormentas e o transformado em Cabo da Boa Esperança – o que faz também cair por terra a ideia folclórica de que Cabral tentava algum caminho alternativo às Índias quando chegou “por acaso” ao Brasil; Cabral era muito bem assessorado e sabia de antemão o caminho, como nos conta João de Barros, historiador português da época de Cabral:
“E porque, pela informação que tinha de navegação daquelas partes [Calecute, Índia], o principal tempo era partir daqui em Março, e por ser já muito curto para no seguinte do ano de mil quinhentos se fazer prestes a armada, teve logo conselhos no modo que se teria nesta conquista, cá, segundo o negócio ficava suspeitoso pelas cousas que dom Vasco da Gama passara, parecia que mais havia de obrar nêles temor de ármas, que amor de bôas óbras”.
A tomada de posse das terras adquiridas no tratado assinado em Tordesilhas era uma missão secundária – e, até certo ponto, nem tão difícil como conta a lenda. Qualquer navegador que fizesse no Atlântico Sul a “volta do mar”, manobra de navegação que consiste num grande arco para fugir das famosas “calmarias”, teria grandes chances de avistar indícios de terra firme a oeste, o que explicaria a não escassa lista de navegadores e possíveis navegadores a se aproximar da costa do nordeste brasileiro e da foz do Amazonas. Chamar os nativos de “índios” é menos uma confusão de nacionalidades do que um típico preconceito generalizante de uma “raça superior” colonialista: não à toa, apesar da Índia ser apenas uma, os europeus identificaram duas – a do Ocidente e a do Oriente.

Sequer se pode dizer que os predecessores de Cabral tenham “descoberto” qualquer coisa. Falar de “descobrimento” é ignorar mais de 10.000 anos de assentamento humano na América do Sul; e “achamento” é só mesmo do ponto de vista europeu, já que, do ponto de vista nativo, o que houve seria muito mais uma invasão europeia. Os espanhóis Gaspar de Carvajal, primeiro a navegar o Amazonas (com o objetivo de converter os nativos e de encontrar El Dorado) e descrevê-lo por escrito em 1536, Francisco Orellana e seu primo Gonzalo Pizarro, mais 280 soldados, se depararam com verdadeiras megalópoles indígenas às margens do Amazonas. Segundo Carvajal, “quanto mais longe íamos, mais densamente povoada e melhor encontrávamos a terra”, “era possível ver cidades muito grandes”, e chegaram a ver um assentamento “que se estendia por cinco léguas sem que houvesse nenhum espaço intermediário entre as casas”.
A própria Amazônia é símbolo da grandiosidade da civilização que aqui havia. Conforme geógrafos, biólogos, arqueólogos e antropólogos, assim como o jornalista científico estadunidense Charles C. Mann, a “Amazônia não é selvagem”, tendo os índios construído “um notável corpo de conhecimentos sobre como manejar e melhorar o seu meio ambiente”. O solo amazônico é pobre, ácido e desértico: “a aparente fertilidade da floresta planáltica é uma impostura”. Um terço da Amazônia é savana. A floresta amazônica seria a mais antiga e maior selva artificial do mundo. Todavia, esta civilização é sempre posta à sombra das antigas civilizações europeias, pela simples ausência de grandes edificações. Ignora-se que a matéria-prima amazônica principal é a madeira, altamente perecível, e que, ainda assim, a Amazônia impõe uma lei de sobrevivência: qualquer comunidade que explorar demasiadamente o ambiente desgastará ainda mais o solo e será certamente extinta. E mais: mesmo na Mesoamérica, ainda hoje se encontra grandes pirâmides que por séculos pensava-se serem morros, tendo sido engolidas pela vegetação. O maior monumento deixado pelos índios da América do Sul foi a própria Floresta Amazônica. Como diz Tzvetan Todorov, “Colombo descobriu a América, mas não os americanos”. A carapuça serviu, mestre Cabral?
A historiografia brasileira, desde Varnhagen, passando por Capistrano de Abreu, atravessando todo o nacionalismo do regime militar até chegar aos dias de hoje, continua a representar o índio ora como canibal sanguinário, ora como o bom selvagem, mas nunca como uma civilização, como se costuma exaltar as do Velho Mundo, em especial, as da Europa e do Oriente Médio. Porém, diante dos fatos aqui apresentados, fica difícil não chegar à catártica conclusão de que nosso querido Cabral, no máximo, foi o primeiro turista europeu a vislumbrar as maravilhosas praias de Porto Seguro. Portanto, Tia Cotinha, não precisa ficar arrasada nem começar a cantar “Meu Mundo Caiu” (1958), de Maysa (“Meu mundo caiu / E me fez ficar assim…”). Para não parecer tão ingênua como agora a senhora possa parecer a alguns de nós, seus ex-alunos, basta uma pequena correção à la “Acarajete Love” no antigo clichê: Pedro Álvares Cabral não descobriu o Brasil – ele descobriu a Bahia! Saravá, ó pá!
E salve Duarte Pacheco, o Aquiles Lusitano, primeiro português a conhecer o Brasil.




