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5 de outubro de 2011

Georges Méliès: Cinema e ilusão

O cinema ainda era uma novidade no fim do século XIX. Como toda nova linguagem, era constantemente testado e experimentado. Afinal, produzir imagens em movimento pode ser um desafio. É assim que surge Georges Méliès. Sua biografia é significativa: antes de se dedicar ao cinema, era ilusionista. Sabia bem como conduzir os olhares voltados ao palco – jogos de espelhos, iluminação, cenário, etc. Descobriu, enfim, que a compreensão sobre o show pode ser direcionada, manipulada.

E foi ao assistir, em 1895, a uma exibição do cinematógrafo dos irmãos Lumière que Méliès se encantou com a tecnologia do cinema. A projeção era muito simples: apenas um trem chegando a uma estação.

Máximo Górki, que acompanhou a projeção, fala sobre seus sentimentos naquela sala:

“…de repente há um estalo, tudo se apaga e um trem numa ferrovia aparece na tela. Ele dispara como uma flecha na sua direção – cuidado! A sensação que se tem é como se ele se arremessasse na escuridão até onde você está sentado e fosse reduzi-lo a um saco de pele estropiado… e destruir esse salão e esse prédio… tornando tudo em fragmentos e pó”

Em meio àquele otimismo da virada do século – muitos avanços tecnológicos e, finalmente, poucas guerras -, a nova tecnologia parecia transformar a condição humana. O jornalista Toulet, que logo se tornaria um grande entusiasta do cinematógrafo, escreve:

“Quando esses equipamentos [as máquinas filmadoras] estiverem nas mãos do público, quando qualquer um puder fotografar os seus entes queridos, não apenas na sua forma imóvel, mas em movimento, ação, gestos familiares, e as palavras sendo ditas pelas suas bocas, aí então a morte não será mais absoluta, não será o momento final”

Uma boa dose de imortalidade e transcendência da condição humana – isto tudo, acreditava-se, trazido pela tecnologia. Georges Méliès, contudo, parecia ver algo a mais naquela projeção. Percebia, com seu olhar de ilusionista, outras possibilidades. Pensava em como unir aquelas luzes projetadas em movimento aos ardis que já usava nos palcos, como mágico.

Méliès se aventura nos cinematógrafos

Nos seus primeiros filmes, tudo é muito semelhante às apresentações de ilusionismo que fazia há poucos anos. A exemplo disso, o “L’illusionniste fin de siècle”, de 1899.

Utilizando os cortes e adulterando a película, pode fazer objetos sumirem diante dos olhos. Arrisca, assim, os primeiros efeitos especiais. Para os olhos acostumados apenas com a linearidade do mundo real, estes recursos são pura magia e apelam ao mito do ser cinematograficamente sobre-humano que descrevia Toulet.

A imaginação fluía. A partir destas novas possibilidades, era possível mesmo colocar homens na Lua, como no “Le voyage dans la lune”, de 1902.

Méliès, assim, iniciava um processo no cinema que, com seus cortes e efeitos, passaria pelos aerolitos voadores do Chapolin e logo desembocaria nas mais recentes tecnologias 3D.

Mas não apenas de efeitos especiais são feitos os filmes de Méliès. Para além dos cortes e montagens dos rolos, uma linguagem estava sendo pensada. Neste mesmo “Le voyage dan la lune”, uma imagem se tornou clássica: a Lua sendo alvejada no olho pela cápsula dos viajantes.

Chegando na Lua no estilo militar em Voyage Dans la Lune

E não foi à toa que esta cena se tornou clássica. Ela é um dos primeiros exemplos de elipse na história do cinema: uma imagem que demonstra alguma mudança de cenário para o espectador. Serve para não deixar confusa a mudança entre cenas – quem se lembra, no seriado Friends, o take da fachada do Central Perk indicando que, na cena seguinte, os personagens já não estariam mais em seus apartamentos; ou, ainda, a imagem da fachada do prédio do Seinfeld deixando claro que, a partir dali, estariam no apartamento do protagonista?

São formas de tratar a linguagem do cinema que, aos poucos, foram tomando forma. Tudo isso, enfim, vindo da experiência de Méliès como ilusionista na virada do século XIX para o XX.

Assista outros filmes de Georges Méliès:

Un homme de têtes (1898)

Cinderella (1899)

Le diable noir (1905)

Le locataire diabolique (1909)



Sobre o autor deste post

Pedro Ferrari
Pedro Ferrari é mestre em História pela Universidade de Brasília (UnB), autor do livro Entreato: o cotidiano de um praça brasileiro na Segunda Guerra Mundial, publicado pela Annablume Editora e é membro da Equipe Histórica




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One Comentário


  1. Caraca! Excelente post.
    Não conhecia essa figura. É muito estranho imaginar a produção de filmes como esses em um contexto imperial de barões, condes e duques.
    “…de repente há um estalo, tudo se apaga e um trem numa ferrovia aparece na tela. Ele dispara como uma flecha na sua direção — cuidado!…”
    Ler essa declaração entusiasmada do Górki sobre o filme do trem (hoje ordinário) me faz imaginar como foi a reação dele ao ver um gentleman explodindo duendes na lua com uma bengala!
    Falou!



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