“Apenas um momento de espanto neste limiar marcado por uma colunata de árvores, o conquistador irá escrever o corpo do outro e nele a sua própria história.”
O lugar de onde tal discurso parte, nos leva para o além-mar. Para as imagens que outrora habitaram as mentes daqueles que mais tarde, receberiam o título (ou estigma) de “colonizadores”. Esse mesmo discurso, nos chega à forma de imagens tenebrosas, diabólicas… Imagens de um mundo que antes mesmo de se ver “descoberto”, já habitava o imaginário de outrem.
A escrita que se seguirá, não trará a ideia de “país tropical, abençoado por Deus”, tão repetido na letra da canção. Não! Longe disso, tentaremos traçar a imagem de um Brasil que ardeu como brasa, no fogo diabólico do olhar do colonizador. Brasa que queimou hábitos, que calou vozes, que marcou corpos. Brasa vermelha, tal qual a pele, daqueles que foram apontados como demônios em terra de ninguém, por aqueles que mais tarde se autodenominaram seus “donos”.
Cantemos aqui, o outro, o “pele vermelha”, pintado de urucu e jenipapo. De penas coloridas e nudez encantadora. Cantemos aqui, os peitos que amamentaram os filhos da mãe terra, que os nutre na vida e na morte. Cantemos a moça com suas “vergonhas” à mostra, escrita por Caminha, em sua conhecida carta ao Rei Dom Manuel.
A carta de Caminha trouxe em suas linhas a busca pela transformação dos então “selvagens”, em “salváveis”. Tal imposição despertou o imaginário do Velho Mundo, que passou a taxar os nativos como luxuriosos, pecadores e endemoniados. Essas palavras podem ser justificadas pela pesquisa da historiadora Laura de Mello e Souza em seu livro “O diabo e a Terra de Santa Cruz.” Neste, a autora se vale dos relatos de viajantes e missionários, que escrevem a terra descoberta como o Éden, ou mesmo, inferno.
Éden que precisava ser purgado, limpo e livre do demônio. Com tal justificativa redentora, o cristianismo trazido de além-mar, escondeu por debaixo de cruzes e vozes mansas, os seus verdadeiros demônios. O Inferno verde deveria a partir deste momento, receber o nome de Terra de Santa Cruz. Tudo estaria salvo.
Engana-se, quem assim pensa! O processo de colonização foi marcado pela dor, pela separação e pela morte. Dor daqueles que se viram segregados por estranhos, de língua e hábitos desconhecidos. Separação daqueles que outrora se viam em comunidade, com seu ritmo e costumes próprios. Morte não somente de corpos, mas da sua cultura, que se viu calada, amordaçada em prol de uma única verdade; o eurocentrismo.
Era necessário vestir, organizar, camuflar e esconder do mundo europeu a imagens de um povo animalesco, vazio e entregue à danação! Os pajés deram lugar aos padres jesuítas, que passaram a celebrar batismos, missas, confissões e todos os rituais católicos. A feitiçaria e o culto à mãe terra foi mostrado como pecado, através de uma infalível ferramenta chamada: Medo. Aqueles considerados rebeldes eram castigados em público, como forma de intimidação.
O nativo tornou-se assim, apenas palavra de um discurso preconceituoso e perverso. Sem voz, sem vida, sem poder, foram treinados a serem obedientes ao seu senhor, aos seus senhores! Com seus novos costumes fabricados; com sua nova língua imposta; com seu novo deus apresentado, passaram a se perguntar: E nós, quem somos? No momento em que tal pergunta se fez, teve-se inicio a perda da identidade indígena. A invenção do Brasil branco, católico e “europeizado”, estava apenas começando!
Colaboradora
A autora do artigo, Suely Nóbrega, é Graduada em História pela UEPB (Campina Grande-PB) e Especialista em Educação Inclusiva pela FIP (Patos-PB)





Até que enfim alguém por aqui toma o lado dos índios! Belo artigo.
Eu sempre entendi a ironia e o sarcasmo que vocês usam para falar sobre os Índios (ops.. nativos, né?) no Visão Histórica. Mas esse artigo veio bem a calhar para acabar com qualquer dúvida.
Adoro o trabalho de vocês e mas raramente tenho tempo para comentar, mas sempre leio tudo que aparece por aqui.
bjs
Belíssimo texto, poético e verdadeiro,
sempre imagino como seria as chamadas Américas se os nativos daqui houvessem organizado uma resistência como a que os japoneses conseguiram organizar, a desvantagem aqui começou, eu acho, na fragmentação dos povos, que, preocupados com suas lutas internas, não perceberam que aquele possível aliado seria, em breve, seu algoz.
Cara, os Japoneses estavam no período Sengoku quando os Nabam apareceram, eles estavam se matando! Não houve uma resistência organizada. Era inviável uma colonização no arquipélago japonês por parte dos Europeus, além do mais, os Japoneses tinha armas de ferro (mesmo o minério de ferro deles sendo inferior) e uma organização militar de quase 2.000 anos. Nossos pobres ancestrais morreram como baratas quando os europeus chegaram com as N doenças de toda a Eurásia-África (já que os Portugueses já tinham alcançado Calicute no século XV), as Armas dos ameríndios eram paus e pedras (Também obsidiana na Meso-América e cobre nos Andes).
Contra Ferro, Pólvora e a Peste os índios não venceriam nem se Nhanderuvuçu lutasse do lado deles.
Não há nada melhor para um (a) escritor (a), do que se ver lido (a) pelos demais. Não há nada mais gratificante para o (a) historiador (a), do que a vastidão de olhares com que a história pode ser vista/lida! Agradeço a todos e a todas que leram e se posicionaram com relação ao meu texto, que agora é de vocês! E agradeço à oportunidade dada a mim, por este site, de ser mais uma colaboradora neste belissimo e visionário projeto!
Abraços!
Texto pesado.
Tenho em minhas veias sangue muitas etnias como de índios caingangues e europeus (alemão e espanhol), e agora casei com uma japonesa (fetiche eu sei hahaha), então esta questão de soberania nunca mexeu comigo. Por que muitas vezes na vida vale mais a penas mante os olhos voltados para o futuro do que para o passado.