“Rosebud”. Se fôssemos comparar o fim de Orson Welles com o desfecho de Cidadão Kane, protagonista da obra-prima do cinema moderno dirgida pelo cineasta, esta seria sua última palavra. Ao morrer de um ataque cardíaco aos 70 anos, em sua residência, Welles deixou não só a certeza de que o cinema tinha perdido um de seus maiores gênios, como também a impressão que sua vida, sua obra, sua personalidade e carisma, permaneceriam como um mistério tão grande quanto Kane. Ou quase:
“Há seres humanos – diria Welles a respeito do personagem principal de sua obra – sobre os quais não existe uma verdade final, mas apenas anedotas, lembranças, retratos pintados por vários artistas”. Assim foi com Kane. E, de certa forma, com ele próprio.
Matéria sobre a morte de Orson Welles no Jornal do Brasil
Muitos Orson Welles existiram num só: o ambicioso e ousado diretor de teatro, o ator, o cineasta, o escritor, o superstar, o radialista, o gênio incompreendido, o menino-prodígio, os incontáveis papéis que viveu num punhado de filmes ruins que só se tornaram assistíveis por causa dele. Afinal, quem era Orson Welles?
“Como diretor eu mesmo pagava meu salário com meus trabalhos como ator. Usei minha própria obra para financiar minha obra. Em outras palavras, sou louco”, resumira ele uma vez após ganhar um prêmio por seus filmes.
Anedotas, fatos, lembranças, retratos pintados por vários artistas, entre os quais ele mesmo. Escrever peças de teatro era outra de suas façanhas de menino. A par desse lado anedótico meio ficcional, ressalta mesmo a figura de um homem extremamente talentoso, genial. Seus programas de rádio foram um marco de qualidade e inovação. Contava com atores jovens e destinados a fazer carreira. Levava peças clássicas ou inéditas neste meio de comunicação, como foi o caso do memorável fato acontecido em 1938.
Orson Welles em Macbeth
Um de seus programas estava destinado a narrar a história que custaria a Welles alguns contratempos. Resolveu adaptar para o rádio o romance ficcional “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells. Tão real, tão viva foi a interpretação radiofônica, que centenas de pessoas que pegaram a transmissão da peça no meio, de fato acreditaram que os Estados Unidos estavam sendo invadidos por alienígenas. Pânico foi espalhado pelas ruas do país e Welles teve a fama projetada além das fronteiras norte-americanas.
Embora tenha feito um pouco de tudo, foi pelo seu cinema que entrou para a história. Em sua opinião, “a grande forma de arte do nosso século”.
Opinião Histórica
No mês em que o Visão Histórica apresenta a História dos Discos Voadores, lembramos a morte do homem que fomentou, mesmo que por linhas tortas, o “mercado extraterrestre” de uma maneira sem igual até então. Comentar a obra de Orson Welles é perda de tempo ou metralhadora de elogios, então fiquem com o trailer de Cidadão Kane e guardem uma boa lembrança.
Quer saber mais?
Artigo originalmente publicado por Alice Melo no blog Hoje na História do Jornal do Brasil. Reprodução autorizada pela parceria firmada entre o Histórica e o CPDoc do Jornal do Brasil. A seção “Opinião Histórica” é a opinião do editor do artigo sobre a matéria e não faz parte do texto original.






