Há exatos 17 anos, multidões nas ruas e praças das principais cidades do país acompanharam a transmissão, pela Tv e rádio, da votação de impeachment do então Presidente da República Fernando Collor de Melo, comemorando voto a voto o seu afastamento. Em frente ao prédio do Congresso Nacional, em Brasília, cerca de 100 mil pessoas aguardaram ansiosamente o resultado da contagem dos votos dos deputados federais que, numa decisão inédita no país, autorizaram a deposição do presidente. Foram 441 votos contra Collor (105 a mais do que o necessário), 38 a favor do presidente e uma abstenção.
O 336º voto, que completou os dois terços necessários para o afastamento de Collor, foi, por coincidência, de um mineiro, o deputado Paulo Romano, conterrâneo do vice-presidente Itamar Franco. Ao final da sessão, aos gritos, abraços e aplausos, os deputados se reuniram no plenário lotado e cantaram um trecho do Hino da Independência, enquanto Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara, proclamou o resultado: “Está admitida a acusação contra o presidente da República”.
A decisão da Câmara se deu quatro meses após a instalação da mais devastadora Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do país, criada para investigar as denúncias de Pedro Collor, irmão do presidente, sobre um esquema de corrupção e tráfico de influência operado por Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor.
Cerca de dois meses depois da aprovação do impeachment na Câmara Federal, Fernando Collor renunciaria a presidência, deixando o cargo em 29 de dezembro de 1992. Entretanto, sua postura não impediu que seus direitos políticos fossem cassados por oito anos, até 2000. Atualmente, Collor é senador pelo estado de Alagoas, tendo tomado posse em 2007.
Opinião Histórica
Nunca existiu, no Brasil, um movimento mais “desvia-atenção” do que o processo de impeachment contra Fernando Collor, então presidente, que culminou com sua renúncia. A massa de manobra obedeceu ao comando e foi se pintar e passear pelas ruas enquanto o nobres deputados se debatiam em busca das câmeras de TV e alguns arquivos eram queimados. Em outra oportunidade falarei sobre a questão PC Farias, mas abram os olhos, queridos leitores, olhem além das telas e percebam a manipulação.
Quer saber mais?
Artigo originalmente publicado por Thiago Jansen no blog Hoje na História do Jornal do Brasil. Reprodução autorizada pela parceria firmada entre o Histórica e o CPDoc do Jornal do Brasil em nome da disseminação do conhecimento de assuntos históricos e o fomento de sua pesquisa em qualquer nível. A seção “Opinião Histórica” é a opinião do editor do artigo sobre a matéria e não faz parte do texto original.






Olá Gabriel,
Há muito tempo escuto o VH e a partir desse momento terei mais interação com o sítio, fórum, etc. Sou professor do Estado do Rio de Janeiro, formado pela UFRJ em História.
Bem, especificamente sobre o processo “Collor”, há clara omissão no tratamento coeso da corrupção, contudo falar de “manipulação de massas” é algo um pouco maniqueísta dentro das concepções historiográficas vigentes. O discurso do VH por inúmeras vezes é contraditório ao supor que a população “não sabia o que estava fazendo”.
Estou ciente dos mecanismos de manipulação ideológica e que a mídia tem um forte fator para isso – que nosso companheiro publicitário do VH o diga.. – porém não posso concordar que processos históricos foram definidos apenas por vanguardas manipuladoras.
No caso específico de Collor, sua saída teve um forte componente político gerido dentro da cúpula senado-câmara sim, mas os movimentos populares – e não me refiro APENAS sobre os cara-pintadas, mas também na organização de aglutinações populares como associações de moradores, etc que tomaram os processos de manifestação Diretas-Impeachment como impulso à suas ações – foram positivas e podem sim ser consideradas como expressões da cidadania que engatinha ainda cá em Pindorama.
Se ficarmos pensando apenas em manipulação de massas todo o processo eleitoral seria manipulado, já que as influências retóricas e as técnicas argumentativas – para ilustrar apenas – são inerentes ao discurso humano. De resto, apenas aponto que a “manipulação” não é mais considerada uma via explicativa coesa nem para regimes autoritários/totalitários, mesmo que isso toque na ferida de muitos.
Exemplifico: Vargas não é mais considerado “populista”, a ditadura no Brasil é entendida como um processo CIVIL-MILITAR e não apenas MILITAR e Hitler é considerado como um governante de amplo apoio popular, que tinha seus próprios interesses.
Pois bem, então entendamos Collor. Se ele foi um “laranja” saindo, ele também foi um “laranja” entrando, haja vista que não tinha base partidária e que toda a coligação do seu pequeno partido já indicava suas pretensões. Mas, hoje não é dia necessariamente de falarmos de sua eleição, correto?
Pois bem, peço desculpas pelo extenso comentário e gostaria de solicitar que temáticas de outros regimes de temporalidade (História Antiga, Medieval, Moderna) e de outras regiões (África, Oriente, Oceania, Atlântida, rs.) fossem inseridas no Hoje na História, bem como no próprio VH. Por exemplo: estariam todos de Jerusalém no dia de HOJE comemorando o ano novo Judeu, com o que está sendo votado ESSA SEMANA?
Não preciso comentar muito para que percebam o “gancho” da provocação.
No mais, parabéns pelos podcasts.
Saudações.
Obrigado pela sua participação Jorge!
Como membro da equipe Histórica e também, como filho de Clio, fico contente com as participações dos ouvintes e visitantes do Histórica.
Concordo muito com você! Enxergar as situações apenas por um olhar significa deixar de entender toda a complexidade de nossa sociedade e por isso, entendo a sua preocupação. Porém estimado camarada, o nosso enfoque neste caso foi naquilo “que a população deveria saber, mas ainda não sabe”. Muitos ainda pensam que o impeachment do Collor foi “apenas” por revolta popular devido à forte corrupção na sua gestão.
Enfim, abordamos um dos principais aspectos deste importante momento de nossa história recente……. e calma rapaz! Um assunto tão rico como este ainda vai render um Visão Histórica com certeza.
Abraço!
Opa, obrigado e seja bem-vindo ao palco da discussão livre. Não precisa se desculpar pelo extenso comentário, como eu disse: Discussão livre!
Entendo seu ponto de vista, mas quando eu digo “manobra de massa”, estou falando do desvio de atenção da população para um fato que, apesar de muito importante, me “cheira” como uma ótima saída para evitar qualquer tipo de investigação sobre os envolvimentos com grupos criminosos e queima de arquivo (PC Farias, etc…).
A premissa do Histórica é despertar o interesse e fomentar a pesquisa e a discussão sobre temas históricos. Por natureza, nossa equipe é “um pouquinho” sarcástica e pode lançar algumas dicas aqui ou ali, sempre em nome desse fomento
Mais uma vez, agradeço pelo comentário. A opinião contrária é sempre importante e, digo mais, necessária para uma discussão ter alguma utilidade.
Abraço!
Concordo contigo, Jorge.
O clima, à época, era muito mais profundo do que a mera sanha dos meios de comunicação. Abertura política ainda recente, clima de insegurança, a consciência da época dos fiscais do Sarney… tudo isso estava ali, misturado.
Esses grandes veículos de comunicação, penso, não inventam comportamentos – apenas reforçam expectativas já existentes. Afinal de contas, não dá pra ignorar toda a pressão exercida por eles (mas, ainda assim, dependem de uma rede de valores da qual, no final das contas, apenas se servem).
Nesse contexto, tendo a acreditar que a grande mídia (como, por exemplo, a exibição da série “Anos Rebeldes” à época) é apenas mais um fator nesse emaranhado de culturas. Diferentes formas de “estetizar” o que então acontecia no Brasil.
Abraço, miliciano!
Faltou mencionar a Hiperinflação da época e que a resposta dada por Collor/Zélia não foi diferente da de Sarney/Funaro, com o agravante do confisco de todos os depósitos da Caderneta de Poupança.
O pouco apoio popular que Collor conseguiu com a propaganda ostensiva que a Globo fez dele no período pré-eleitoral foi pro ralo com esta medida extrema.
Cara, em 1o. lugar: politico corrupto tem mais eh que se fuder mesmo… e deveriam ter seus direitos politicos cacados para nunca mais ocupar qq cargo politico.
Porra, eu acho uma vergonha o Collor ser senador da republica — continua mamando nas tetas do governo.
Quanto ao impeachment, eu ainda consigo enxergar um lado bom, apesar da manobra de manipulacao e queima de arquivo, provou que o pais pode e deve usar as “ferramentas” necessarias para tirar alguem do poder — eh claro que se junto com o Collor fossem todos os outros corruptos, nao sobraria ninguem… pois todo mundo sabe que no Brasil nao tem 1 politico que preste: 0% de aproveitamento.
Qual sera a solucao, sera q deveriamos importar politicos da Suecia (pensei em louras suecas tbm)?
As engrenagens do poder sao tao corrompidas que se um comecar a falar do outro vira um loop infinito e nao sobra um pra contar a historia, POIS TODOS OS POLITICOS BRASILEIROS TEM O RABO PRESO (e nao eh soh no Brasil, eh soh olhar o wikileaks).
Collor: morra
Politicos brasileiros: morram
PAZ!
Zex
ps: falando assim eu me sinto o Gil Brother — fim de papo, Away!!
“Collor: morra
Politicos brasileiros: morram
PAZ!”
HAHHAHA
HAHAHAHAHAHA
eles podiam morrer de causas naturais, pacificamente…. mas logo :p
O problema nao sao os politicos corruptos, e sim o judiciario que eh corrupto.
Em nenhum pais do mundo os politicos sao bonzinhos, o que acontece eh que em muito deles a justiça faz sua parte…
concordo Maria I — se vc faz valer a lei, vc desperta o sentimento do cagaço… ou seja, melhor eu nao fazer nada errado… pq se me pegarem eu to FUDIDO! pronto
Muito sensata a D. Maria I, a louca.
Realmente.
Discordo!
O problema são os políticos corruptos, que não são apenas os membros do executivo e legislativo, mas também do judiciário e de boa parte da sociedade.
Judiciário neutro é uma falácia tão grande quanto o da ciência neutra.
Ele é um retrato de sua sociedade e, no nosso caso, de nossa elite. Então a cúpula do Judiciário dificilmente irá agir contra seus pares no executivo, legislativo e até empresários.
Ou vcs acham que a choradeira dos ministros do Supremo por conta de se usar algemas em um banqueiro existiria se eles não pensassem: “se nem um dos donos do dinheiro está livre de passar por isso, o que vai acontecer comigo?”
E os nossos governantes são, em boa medida, retrato de nossa sociedade. Se discordam , procurem um dos primeiros quadros do CQC, em que uma senhora xinga os governantes de corruptos, mas dá troco errado para um cego. E se perguntem se não conhecem mais ninguém que faria algo parecido vivendo perto de vocês, e que não tem cargo público.
Os tubarões botou ele como presidente e tirou quando foi necessário.
Foi esta a impressão qeu tive na época. E por isso mesmo não participei do movimento dos “cara-pintadas”.
E também porque eu pensava: “não coloquei este cara aí, quem o colocou que tire”!