Ah, o refrigerante… bebida rica em corantes e conservantes, dotada de uma quantidade absurda de açúcar adicionada de aroma sintético. Descrito dessa maneira o refrigerante traz aquela velha idéia de que não faz nada bem a saúde, porém, mesmo assim, há quem não resista a um belo copo gelado num dia de excessivo calor. Hoje vendido quase ao preço da gasolina, o refrigerante desenvolveu-se durante os séculos, passando de mero suco sem graça à uma das bebidas mais vendidas em todo mundo. A invenção da bebida, a criação das companhias, origem dos nomes, curiosidades e toda a tecnologia desenvolvida para este item, hoje comum, você fica sabendo agora.
Antes do refri arrotava-se com que??
Você já deve desconfiar que os refrigerantes nem sempre foram como nós os conhecemos hoje. Na verdade os primeiros refrigerantes sequer podiam ser chamados assim já que a mistura vendida em 1676 em Paris era composta de água, sumo de limão e açúcar. Ou seja, vendiam limonada como refrigerante – e olha que há um tempinho atrás estavam vendendo refrigerante como água não é? Pois bem, na época da “limonada-refrigerante” não existia um importante composto básico do refrigerante moderno, a água misturada ao gás carbônico, ingrediente responsável pelo gás do produto.
Joseph Priestley e Antoine Lavoisier
Entre 1772 e 1773 o inglês Joseph Priestley e o francês Antoine Lavoisier tiveram sucesso ao tentar recriar a água gaseificada com o recurso de uma bomba que auxiliava no processo de fixar o gás na água, com o objetivo de adicionar ingredientes curativos às bebidas gaseificadas. Anteriormente a invenção de Priestley e Lavoisier, os europeus importavam água gaseificada vinda de certas regiões da Bélgica. Certo tempo depois, em 1782, o farmacêutico americano Thomas Henry passou a produzir água carbonatada de maneira industrial.
Por volta de 1794, o joalheiro suíço Jacob Schweppe, tem a idéia de comercializar uma água com elevados teores de gás carbônico. Sua receita cai no gosto dos europeus e ele obtém sucesso com sua fórmula e torna-se uma das marcas mais famosas até hoje, a Schweppes. A venda da água gasosa ficou mais fácil a partir de 1819 com o surgimento da “fonte de soda” patenteada nos Estados Unidos. A fonte ficava no balcão das farmácias e gaseificava o líquido adicionado de sabor na hora. Os sabores passaram a ser adicionados em 1820, sendo o gengibre o primeiro, seguido pelo limão em 1830. Perceba então que esses “refrigerantes” ainda eram vendidos nas farmácias com caráter medicinal, para ajudar na digestão.
Desenvolvimento do Refrigerante
As farmácias passaram a ser pontos de encontro entre os ávidos bebedores de xaropes gasosos. Já o aumento no consumo da bebida causou a necessidade de se ampliar o espaço físico das farmácias para receber um número maior de consumidores, algumas chegavam a deixar o comércio de medicamentos de lado para se dedicar a venda no atacado. E com uma coisa puxa outra, os proprietários passaram a competir pelos consumidores, criando novas misturas, novos sabores, cada vez mais elaborados, guardando suas receitas de sucesso a sete chaves.
As três maiores marcas no segmento de refrigerantes surgiram nos Estados Unidos num período um pouco maior que dez anos exatamente por ex-farmacêuticos que seguiram o caminho citado acima.
Doutor Pimenta??
A primeira delas foi criada em 1885 por Charles Alderton, que iniciou as misturas de xaropes na tentativa de recriar o aroma de frutas que pairava no ar da loja onde trabalhava. Depois de muitas tentativas Alderton chegou a uma mistura de 23 ingredientes, experimentada primeiro pelo dono do estabelecimento que aprovou a mistura. Depois de aprovada pelo público a bebida de Alderton passou a ser requisitada pelos comerciantes. O aumento no consumo criou a necessidade de um aumento na produção e aí você já deve imaginar como a Dr. Pepper se tornou uma das grandes marcas de refrigerante. Ah sim, a bebida de Alderton foi batizada de Dr. Pepper como homenagem a um amigo de mesmo nome.
John Pemberton, o pai da Coca-Cola
Um ano depois da criação da Dr. Pepper, em 1886, John Pemberton, outro farmacêutico americano, inventou a Coca-Cola – hoje o refrigerante mais vendido no mundo. Em sua mistura de tônico revigorante, John misturou cocaína e noz de cola, que contém alta concentração de cafeína. Mas a Coca-Cola passou a ser o refrigerante mais vendido a partir de 1903, quando retiraram a cocaína de sua fórmula inicial. Uma curiosidade sobre a Coca-Cola é que seu nome foi escrito a mão por Frank Robinson, contador de John Pemberton, e utilizada desde então.
Pepsina saborosa
Por último, mas não menos importante, foi lançada a Pespi em 1898. Mas a criação da Pepsi é um pouco mais antiga e começou quando Caleb Davis Bradham, também farmacêutico, inventou uma bebida composta por água carbonatada, açúcar, baunilha, aromas de especiarias, pepsina e extrato de noz de cola, com o intuito de aliviar o mau causado no estômago devido ao desequilíbrio de ácido péptico. Os consumidores gostaram tanto do sabor da bebida de Bradham que passaram a tomá-la mesmo quando não tinham problemas de estômago. O sucesso fez Bradham se dedicar a produção do produto que recebeu o nome de Pepsi-cola, devido a pepsina contida na fórmula.
A partir daqui os refrigerantes deixavam de ser meros remédios para dor de barriga para se tornarem símbolo de rebeldia e cravar seu nome entre os mais conhecidos do mundo.
Posso levar pra viagem?
Sair das farmácias e chegar à casa dos consumidores ainda borbulhante era algo difícil para a época em que o refrigerante foi inventado. Todo o processo era manual e as embalagens não conseguiam manter a mágica do refrigerante por muito tempo. Motivo? A necessidade é a mãe da criação, ou seja, a invenção do refrigerante é anterior à invenção das máquinas de moldar vidro – invenção de 1904. Sendo assim cada garrafa de vidro era soprada manualmente, sua cofecção era artesanal, consequentemente cada uma saía com um tamanho e forma o que dificultava tanto o armazenamento quanto o transporte e a vedação das garrafas, o que tornava o armazenamento e transporte de refrigerantes algo barulhento e dispendioso para o comerciante. A criação da tampinha coroa – obra do americano Willian Pinter em 1892 – foi o que proporcionou levar o refrigerante para dentro dos lares mundo afora. A tampinha era feita de metal e cortiça e conseguia manter o gás do refrigerante, proporcionando seu armazenamento e seu transporte. Pronto, estava criado o caminho do refrigerante até as mesas de jantar dos lares de todo o mundo.
A partir de então foi declarada guerra pelos consumidores e pelas vendas de refrigerante. A primeira pedra foi lançada pela Pepsi, que alterou a quantidade de refrigerante vendido nas garrafas, passando de 170ml para 350ml sem alterar seu preço. Resultado? Aumento absurdo nas vendas de Pepsi. A Coca-Cola então rebateu com dois elementos utilizados até hoje pela companhia, design e propaganda: criou slogans, buscou por pontos de vendas, fez propaganda em jornais e revistas. Foi também a primeira empresa a criar uma garrafa exclusiva, modelo mantido até hoje e apelidade de Mae West, uma atriz de Hollywood cujas curvas lhe renderam o título de símbolo sexual na década de 30.
Segunda Guerra Mundial, estratégia da Coca-Cola para dominar o mercado?
Fato marcante para a Coca-Cola foi a Segunda Guerra Mundial, foi aqui que a empresa deu um salto enorme. Como você deve saber os americanos são extremamente nacionalistas, ainda mais se estiverem em guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial o presidente da Coca-Cola prometeu aos soldados que eles se sentiriam em casa, mesmo estando à quilômetros de distância de sua nação. Para isso o Sr. Robert Woodruff queria garantir que todos pudessem comprar uma garrafa do seu refrigerante a somente US$0.05. Se o local onde estavam os soldados fosse desprovido de estabelecimentos que comercializavam ou entregavam o refrigerante, ele mandou instalar kits para misturar e envasar manualmente o produto. Essas “mini-fábricas” de Coca-Cola abriram caminho para a regionalização das fábricas, o que levou a marca a se tornar uma multinacional e a difundir o modo de vida americano. Coca-Cola e Pepsi tornaram-se fortes exemplos do poder global dos americanos, foram usadas como armas da propaganda política e símbolo de uma sociedade de consumo ao lado das calças jeans e do rock’n'roll.
Depois do sucesso dessas três gigantes era só copiá-las.
Refrigerantes no Brasil
No Brasil os refrigerantes de cola não viraram febre logo de cara. Na verdade os brasileiros estavam acostumados com os refrigerantes que tinham cores e sabores já conhecidos, como laranja e limão, e ver aquele líquido escuro vendido em garrafa transparente deixava os consumidores desconfiados.
Deixemos o Tio Sam de lado e vamos falar um pouco sobre um produto exclusivo do Brasil – não, não é a corrupção – o guaraná. Fruto originário da Amazônia e encontrado somente no Brasil e na Venezuela, o guaraná contém altos índices de cafeína e tem propriedades estimulantes.
O processamento do guaraná para produção de refrigerantes no Brasil segue a onda mundial, iniciando em 1905, com a criação do método de processamento do guaraná para a obtenção do xarope. Em 1906 produz-se o primeiro refrigerante de guaraná – Guaraná Cyrilla, fabricado pela F. Diefenthaller, no RS – e em 1921 é lançado o Guaraná Antarctica, pela Companhia Antarctica Paulista, que teve como responsável pela receita o químico Pedro Baptista de Andrade. A Antarctica comprava o fruto direto dos produtores no Amazonas, mas com o crescimento da empresa ela compra a Fazenda Santa Helena, onde passa a produzir o fruto e a realizar pesquisas, divulgando seus resultados para outros produtores para que não haja variação na qualidade do que é comprado de terceiros.
Foi em 1950 que a venda de refrigerantes no Brasil deu seu primeiro salto considerável e foi impulsionado tanto pela aceitação da Coca-Cola como pela chegada de eletrodomésticos – especialmente os refrigeradores – nas casas de classe média. A indústria não perdeu a oportunidade e na tentativa de vender mais criou a garrafa de 1 litro. A substituição das garrafas de vidro pelas de polietileno tereftalato – PET – barateou os vasilhames e, por serem descartáveis, deram a indústria do refrigerante um alcance praticamente ilimitado.
No ano de 2000 com a criação da AmBev (fusão da Antarctica com a Brahma) ouve um acúmulo de produtos de guaraná pela mesma empresa, que agora produzia o Guaraná Antarctica e os refrigerantes de guaraná da Brahma: Guaraná Brahma, Kas Guaraná, Kas Guaraná Maracujá, Kas Guaraná Acerola e seus sabores. Para não se perder no meio de mais de 14 produtos a AmBev decidiu manter somente o Guaraná Antarctica. Sábia decisão!
Uma curiosidade – pra você que não conhece, é claro – é o Guaraná Jesus vendido somente pro lado do Maranhão. Jesus nasceu a partir de um erro de percurso, foi criado acidentalmente, como muitas das coisas que vemos ou usamos e nem nos damos conta. Em 1920 Jesus Norberto Gomes tentou criar magnésia fluida, que era um medicamento famoso naquela época. Como não conseguiu fazer a magnésia resolveu fazer uma bebida para o netos e acabou agradando mais gente. Nascia o Guaraná Jesus.
O trem é rosa, tem cheiro de tutti-frutti e um gostinho final de canela, o que me faz lembrar aqueles sorvetes que tinham as garrafas de vidro em cima com os sabores, todos com cores vívidas e o mesmo sabor. Sempre acreditei que aquilo deveria dar câncer, mas mesmo assim continuo consumindo aquela mistura. Voltando a Jesus, a empresa que o fabricava foi comprada pela Coca-Cola, reza a lenda que numa belíssima manobra de mercado, já que é decisão da nova empresa não comercializar nem divulgar Jesus em todo o Brasil.
Hoje no Brasil existem mais de 300 empresas que fabricam refrigerantes, cujas vendas totais chegam próximas dos 12,2 bilhões de litros anuais. No mundo, são vendidos cerca de 158 bilhões de litros, pouco mais de 30 litros por pessoa.
Observamos então que os refrigerantes influenciaram a indústria da publicidade para confirmar isto basta ver a quantidade de comerciais e ações promocionais criados por cada uma das grandes empresas que disputam acirradamente os consumidores.
A indústria do refrigerante também moldou novos costumes. Da antiga garrafa de vidro com tampa de metal, a qual necessitava de abridor e satisfazia três crianças e dois adultos, para as modernas, práticas e duráveis garrafas PET que mal satisfazem três pessoas, hoje é praticamente impossível passar um dia sem ver sequer uma latinha de refrigerante ou imaginar o almoço de domingo ou a festa das crianças sem ele.
Então é isso pessoal, depois dessa conversa pegue seu copo e divirta-se com o famoso comercial de 1990 e a possível conseqüência do abuso do refrigerante:
Certo, já vou avisando pra depois não ter problemas: o senso de humor dos integrantes da Equipe Histórica é um tanto quanto ácido, mordaz, negro, etc. Caso você seja uma pessoa politicamente correta a qual se divirta apenas com piada de pontinhos, pare por aqui. Se você não acha graça em gente caindo, pare por aqui. Agora, se você é daqueles primeiros citados, divirta-se!







Não sabia que o guaraná era tão velho, o refrigerenta claro, a fruta deve ser mais ainda….(aí que engraçado que sou)
Fiquei com vontade de experimentar Jesus..hummmm. quer dizer, guaraná Jesus, procurei no Mercado Livre, e achei!!….vou comprar…..
Sempre tive vontade de experimentar Dr. Pepper, e fiquei surpreso ao saber que ele foi inventado antes da Coca.
Boa matéria, gostei.
A Rita Lee é praticamente uma viciada em "Jesus". Ela fala tanto dele no Twitter que até deu vontade de experimentar… Depois desse post então… afff! Vlw Juliozales pela dica do ML! Vou comprar agorinha mesmo meu guaraná Jesus!!!
Doidera…
A historia do nosso salvador (Jesus) eh maneiro. O resto… é o resto. rs
poderiam por favor disponibilizar a fonte dessa pesquisa? obg
Nathalia, o autor do artigo sobre a História do Refrigerante não faz mais parte da Equipe Histórica, mas vamos entrar em contato e solicitar que informe as fontes. Te enviamos os dados assim que recebermos.