A Guerra Fria se rende ao entretenimento
No regime comunista tem entretenimento? Tem sim senhor!
Apesar da tecnologia do vídeo game estar, desde o início, concentrada em apenas dois pólos, que são Estados Unidos e Japão, em outras partes do mundo, haviam mentes pensando em entretenimento e desenvolvendo jogos tão ou mais marcantes que os estadunidenses e japoneses. Na fase de decadência da Guerra Fria, seria, ironicamente, da União Soviética que sairia um dos maiores sucessos da História da indústria do vídeo game.
Como vimos na parte 4 desta coluna, depois de um sucesso estrondoso e enriquecimento rápido de seus líderes, a indústria do vídeo game entrou em uma fase de sensível desbalanceamento entre as questões comerciais e criativas, culminando com o a “Grande Quebra” de 1983, após o fracasso do mal planejado jogo sobre o filme ET, de Steven Splielberg, que, como citamos, também na parte 4, teve lotes inteiros de exemplares descartados pela Atari em um aterro.
Enquanto o mercado do entretenimento parecia perder uma frente de combate, do outro lado da Cortina de Ferro, na antiga União Soviética, um engenheiro de computação da Academia Russa de Ciências estava cansado da falta de interesse do governo de Soviético em prover entretenimento para a população. Alexey Leonidovich Pajitnov trabalhava cerca de 14 horas por dia e se divertia com os computadores, assim como todos os desenvolvedores já citados aqui. Essa diversão em manipular dados traria a Pajitnov uma idéia, um conceito tão simples quanto genial que teria poder para atravessar as barreiras mercadológicas, políticas e culturais de um modo que nenhum outro jogo jamais havia feito e, me arrisco a dizer, ainda não foi repetido. Pajitnov deu ao mundo o Tetris.
Versão Original de Tetris
A mente de Pajitnov era povoada, além do óbvio por ser engenheiro da computação, pela paixão por quebra-cabeças e jogos de estratégia onde se deve mover peças num tabuleiro. O conceito presente em Tetris é puramente matemático, são peças de diferentes formatos que caem do topo da tela e podem ser giradas e movidas para que se encaixem ao chegar na parte de baixo. Lendo isso, na letra fria da lei, parece algo extremamente entediante, mas trata-se da experiência mais viciadora já criada no mundo dos vídeo games e, para quem acha que o autor da coluna está sendo parcial em favor do jogo que tanto gosta, continue lendo que ainda chegaremos na parte onde o Tetris se torna o causador de um transtorno obsessivo compulsivo.
Alexey Pajitnov: "Agora eu vivo de renda!"
Tetris foi lançado em 195 na União Soviética e, em 1986 começou a ser distribuído pelo mundo. Pajitnov assinara um contrato onde cedia os direitos autorais do jogo para o governo soviético assim como deveriam fazer todos os cidadãos que criassem algo no regime comunista. Atentos ao buraco deixado pela Atari e demais competidos do mercado, a União Soviética despejou o jogo pelo mundo, faturando milhões sem repassar um centavo a Pajitnov, que se limita a dizer que, naquele momento , estava mais interessado em ver o jogo sendo distribuído em locais que ele jamais imaria atingir, do que brigar com o governo pelos seus direitos.
Esse contrato de concessão de direitos era válido por 10 anos, então, em 1996 os direitos autorais passaram a pertencer a Pajitnov, que havia se mudado para os Estaos Unidos em 1991, depois da queda do regime comunista e do fim da União Soviética. Mesmo sem receber um tostão por dez anos, hoje Pajitnov afirma, sem cerimônia ou culpa: “Agora eu vivo de renda, às vezes faço um jogo com algum amigo, mas passo a maior parte do tempo lendo e me divertindo.”
Entrevista inusitada de Pajitnov para fã, caminhando
Atravessando a Cortina de Ferro sem ser notado
Além de ser extremamente viciador, ter seu conceito simples e genial e, de maneira surpreendente, ter atravessado as barreiras mercadológicas da Guerra Fria, existe um fator ainda mais interessante para ser analisado, que é o fato desse ter sido um jogo que foi aceito em todo lugar onde chegou.
Lembram do que foi dito sobre o Pac Man? Que os americanos gostaram do jogo, mas torciam o nariz para o estilo gráfico colorido, considerado como infantil? Isso apenas como um exemplo para ilustrar o que vem a seguir, nem vou entrar em detalhes do que os japoneses deveriam achar dos jogos americanos onde bombas caíam do céu ou, em tempos atuais, a “diversão” que deve ser para um jovem árabe, jogar como americano matando árabes…Mas deixando os devaneios modernos de lado e voltando ao ponto! Tetris não apresentava nada que pudesse identificá-lo com a União Soviética, não era um jogo em tons de vermelho onde você deveria encaixar foices em martelos. Também não havia a menor margem para que alguém pudesse se ofender com o conceito tampouco com o estilo gráfico, sem anves destruindo naves inimigas, sem monstros invadindo o mundo, sem violência nem traços infantis, adultos, masculinos ou femininos. Havia apenas uma tela onde peças caíam e tinham que ser encaixadas.
Em tempo: O nome Tetris deriva de “tetra”, referência ao fato da versão original do jogo apresentar apenas peças formadas por quatro blocos dispostos de maneiras diferentes em cada uma.
Mas voltando novamente ao ponto, essa falta de identificação com qualquer nação, raça, cor, gênero ou credo, foi o ingrediente fundamental para que Tetris fosse um sucesso por onde passasse. O jogo não era vendido como havia sido feito, o governo soviético negociava os direitos de uso do conceito e cada cliente poderia desenvolver sua própria versão, dentro dos peculiares parâmetros sócio-culturais de cada região do mundo. Sendo assim, não espanta termos versões de Tetris com bombas nos Estados Unidos e versões com desenhos animados coloridos no Japão.
Tetris traz danos ou benefícios ao cérebro?
Apesar da informação carecer de fontes confiáveis, há quem diga que sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) causado por jogar Tetris por períodos extremamente longos. As pessoas alegam que tudo que entra em seu campo de visão se torna uma potencial peça do jogo e elas passam a raciocinar involuntariamente sobre como poderiam encaixr um carro na porta de uma loja, por exemplo. Apesar de diversos relatos informais, devo admitir que jamais ouvi um profissional da área neurológica endossando tal patologia, portanto não passa de lenda urbana. Ou seria você, querido leitor/leitora, uma pessoa que sofre de “Visão Tetris”?
Deixando os mitos de lado, foi comprovado, por pesquisadores da Universidade de Oxford, que jogar Tetris ajuda na recuperação psicológica de pessoas que passaram por situações extremas recentemente, diminuindo sensivelmente a incidência do estresse pós-traumático. Além disso, jogos baseados no conceito de Tetris são usados há muito tempo para auxiliar na recuperação de pessoas com deficiências psicomotoras.
Então podemos “des-endemonizar” o Tetris e afirmar que ele faz bem ao cérebro! (Apesar do protesto de alguns capitalistas radicais do século XX)
Seria este o final da História do Vídeo Game?
Claro que não! Se você vive neste planeta, deve saber que a indústria do vídeo game já ultrapassou gigantes como cinema e música há muito tempo e é um dos mercados que mais cresce ao redor do mundo, esticando seus tentáculos em todas as direções, já que vídeo game deixou de ser só para crianças e tem segmentos voltados para todas as idades e gostos. Agora é esperar mais alguns anos para, quem sabe, no futuro, escrever a parte 6 da História do Vídeo Game.
Espero que tenham gostado e aprendido algo. Um abraço e até a próxima Invenção Histórica.






Bom, eu sou fã de Tetris a eras. Pra mim apesar de todos os jogos novos e mega bem produzidos, a ideia dele é simplesmente genial.
Eu tinha aqueles jogos de 999 em 1, e ate hoje pra mim, Tetris é supremo. A musica que vem da russia, segue o link http://www.youtube.com/watch?v=8E3IWzDxPQU tambem é uma das melhores pra mim. eu tive a felicidade de um amigo de banda tocar <3 E claro, esse papo de que tetris faz mal, nao sei pra quem. Li muito sobre crianças com problemas, inclusive mentais estimulada pelo jogo. Nos EUA uma clinica estimula pessoal com alzheimer com o jogo. Legal ne?
Tetris é mais que um jogo, é uma terapia. =]
Parabens rapazes. Simplesmente genial
Muito legal! Video games fazem parte da minha vida.
Ainda estou conhecendo o site, e ainda não tinha lido as colunas.
Parabéns!
Aplausos, clap, clap, clap! Texto maravilhoso! Deveria continuar a escrever sobre a história dos vídeogames até os consoles atuais. De qualquer forma, parabéns pelo PRECISO texto!