Análise
Em 1898, o escritor inglês, H. G. Wells publicou um fantástico livro no qual a Inglaterra era invadida por marcianos que se alimentavam de sangue humano e usavam armas aterrorizantes como raios mortais e fumaça venenosa. Além dos elementos de fantasia, Wells temperou a estória com o drama vivido pelo narrador, um jornalista que tentava reencontrar a esposa e o irmão enquanto Londres era destruÃda e a população da cidade massacrada. O romance fez sucesso no Reino Unido, logo em seguida o texto foi lançado nos Estados Unidos, sem autorização do autor, em duas edições piratas, em uma delas o lugar da ação foi mudado de Londres para New England.
Quarenta anos depois, o programa de rádio norte americano Mercury Theatre in the Air transmitiu uma leitura dramática da Guerra dos Mundos, a locução ficou a cargo do então jovem ator Orson Welles; vários ouvintes entraram em pânico acreditando que se tratava da cobertura jornalÃstica de um verdadeiro ataque dos alienÃgenas e suas máquinas de destruição. Algum tempo depois, uma rádio do México repetiu a brincadeira anunciando a invasão marciana em um boletim extraordinário, o resultado foi mais pânico e algumas tentativas de suicÃdio. O medo de uma invasão de seres interplanetários virou matéria prima para centenas de contos, novelas radiofônicas, histórias em quadrinhos, filmes, seriados de TV e tantos outros produtos; o próprio livro de H. G. Wells foi adaptado para o cinema de forma não oficial mais de uma dezena de vezes.
A mais bem sucedida transposição de A Guerra dos Mundos para o cinema foi, sem dúvida, a lançada em 1953, produzida por George Pal e dirigida por Byron Haskin. No filme os engenhos bélicos de Marte aparecem no sul da Califórnia, atacam primeiro turistas e a população local com rajadas desintegradoras e, depois, entram em confronto com as forças armadas à medida que a invasão se expande ameaçando as cidades vizinhas, toda a América e vários outros paÃses. Nessa versão os inimigos alienÃgenas manobravam naves voadoras em vez das engenhocas com três pernas mecânicas descritas no livro, os Tripods. O terrÃvel Raio da Morte disparado pelos olhos luminosos das naves não poderia faltar, assim como os monstrinhos do planeta vermelho caracterizados de uma forma bem criativa e bizarra com seus três olhos de cores diferentes. O longa tem ainda o mérito de trazer a história para década de 50 com bastante propriedade, mostrando a infeliz alternativa de usar as temidas armas atômicas contra os exércitos invasores.
O protagonista do filme é um cientista chamado Clayton Forrester (Gene Barry, em uma atuação apenas aceitável). O doutor Clayton tenta, de todas as formas, encontrar alguma arma quÃmica ou biológica que possa matar os invencÃveis marcianos, protegidos por sua tecnologia superior, enquanto isso, vive um romance com Sylvia (Ann Robinson), moça que mora perto do local onde surgiu o primeiro artefato extraterrestre. O casal se apaixona ao longo da guerra, no entanto, são separados, durante a fuga da cidade Los Angeles que está sendo completamente devastada. As sequências mais grandiosas e dramáticas mostram a desesperada evacuação da população dos grandes centros urbanos e a busca de Clayton por Sylvia nas ruas quase desertas cujos poucos habitantes remanescentes se agrupam em igrejas e rezam implorando que Deus os salve da morte iminente.
Nos aspectos técnicos, The War of the Worlds de Byron Haskin, é um tÃpico e, no caso ,excelente, exemplar do cinema de ficção cientÃfica dos anos 50 e 60, quando não se faziam filmes contando somente com o impacto dos efeitos visuais; uma boa estória, personagens carismáticos, criatividade e bom senso de drama entravam na fórmula para se obter um sucesso nas bilheterias. O roteiro tem seus pontos de ingenuidade e sentimentalismo, mas não deixa de analisar o comportamento humano em situações limite como, por exemplo, quando uma multidão enlouquecida arranca o doutor Clayton do caminhão no qual ele está transportando aparelhagem de laboratório e amostras de sangue de um marciano que poderiam ser a única verdadeira esperança de desenvolver uma arma contra os invasores ou, a desesperada tentativa do tio de Sylvia de estabelecer um diálogo pacÃfico com os cruéis guerreiros de Marte. O diretor Byron Haskin consegue manter um ritmo de tensão sempre crescente, os efeitos especiais, que eram grandiosos para a época, ficaram bastante datados, principalmente se comparados com os da mais recente adaptação, lançada em 2005, dirigida por Steven Spielberg, uma obra fabulosa visualmente e um verdadeiro desastre em termos dramáticos. Em resumo, Guerra dos Mundos, de 1953 é uma diversão nostálgica saborosa e altamente recomendável, premiada com o Oscar de efeitos especiais no ano seguinte ao de seu lançamento.
Trailer: A Guerra dos Mundos (1953)






Um dos melhores filmes que já vi.
Abraços e Avante Piratas!