Nessa nova série de artigos da seção Música Histórica, vou tratar da queda da indústria fonográfica e de como um jovem rebelde e um empresário charmoso derrubaram um império de bilionários gastadores, excêntricos, mafiosos e atravessadores que não viram a avalanche digital que os encobria e viria a mudar para sempre os rumos do mercado musical. O assunto é extenso então vamos por partes. Hoje abordarei o fim da era disco e o “quase fim” da música como um produto rentável!
1979 – 1982: Fim da era disco
Viciados em poder e movimento anti disco
Viciada em costumes padronizados, esquemas de interesses e tráfico de influência, a primeira queda da indústria fonográfica foi no fim da década de 1970, quando a música disco-dance quase fez o mercado se autoconsumir em seu próprio veneno. As batidas simples, letras vazias, ritmo empolgante e danças coreografadas, foram um sucesso no início, mas logo o público se cansou de perder mais tempo se produzindo para a festa do que propriamente na festa e um movimento “anti disco” começou a tomar força.
Toda moda passa, mas a indústria fez muita força para acelerar esse processo. No meio dos anos 70, deslumbrados com a facilidade em vender um LP encalhado simplesmente colocando um selo escrito “Disco” em sua capa, os empresários logo inundaram o mercado com todo tipo de lixo encomendado e isso fez com que os fãs torcessem o nariz e os “não fãs” se sentissem oprimidos com a perda de espaço. Diferente do que acontece no Brasil, nos Estados Unidos existem rádios com público muito mais segmentado, rock, blues, country, todos tem seu lugar, mas a música disco estava tomando todos os lugares.
Steve Dahl e a Noite de Demolição Disco
Steve Dahl nos idos da era disco
Por conta dessa relação tensa entra indústria fonográfica e seu público, em 1979 um homem, praticamente sozinho, quase destruiu todo o esquema de vendas planejado e mantido quase mafiosamente pelos líderes das grandes gravadoras como Sony e Philips. Seu nome era Steve Dahl, locutor de uma rádio rock de Chicago que, para chamar a atenção do público para o sufocamento do estilo que ele tanto amava, começou a quebrar álbuns da diva do disco, Donna Summer e convidava ouvintes a ligar para a estação e pedir suas músicas discos mais odiadas, que eram executadas durante alguns segundos e depois interrompidas por um som de explosão.
Por que as pessoas odiavam tanto a música disco? Muitos diziam que a maquiagem agressiva, os globos de espelho, os patins e as danças eram irritantes demais, outros diziam que agora um homem precisava aprender a dançar e se vestir bem para atrair as mulheres, mas o motivo real é um só: Negros e homossexuais se tornaram o principal público da música disco, algo que pode ser bonito nos filmes, mas na vida real, quando essas minorias tomavam o lugar dos alvos roqueiros rebeldes-sem-causa, era uma afronta ao “modo de vida” dos americanos.
Disco é uma merda, bela paródia
Em 12 de julho de 1979 aconteceu o evento decisivo e ponto mais alto da campanha anti disco de Dahl, que ficou conhecido como Disco Demolition Night (Noite de demolição disco). Dahl conseguiu um espaço para fazer sua apresentação no intervalo de um jogo de baseball entre Chicago White Sox e Detroit Tigers no Comiskey Park, estádio dos White Sox. Em seu programa de rádio, Dahl convidou o público a ir ao estádio com seus álbuns de música disco mais odiados para serem empilhados no centro do campo, onde seriam dinamitados todos de uma só vez.
Como parte da promoção, quem aparecesse com seu LP para ser demolido, pagaria apenas US$ 0,98 pela entrada. Descrentes do resultado, os diretores dos White Sox esperavam entre 1.000 e 2.000 espectadores a mais do que a média do time, que era de 16.000 por partida. A segurança foi reforçada assim que o estádio foi invadido por 59.000 furiosos fãs de rock. Além desse sucesso inesperado, mais 15.000 pessoas se aglomeravam do lado de fora com pilhas e pilhas de álbuns dos Bee Gees e Village People, vestindo camisetas da banda Led Zeppelin, quebrando garrafas e fumando “coisas” enquanto gritavam em coro: “Disco é uma merda”.
Noite da Demolição Disco – Invasão do Estádio
Surpreso com o alcance da promoção, Dahl ficou impotente diante da chuva de álbuns durante o jogo, que fez os jogadores deixarem o campo para não se tornarem alvos dos LP recém transformados em frisbees. Mesmo nervoso e amedrontado, Dahl se dirigiu ao centro do campo em um jipe militar, pegou o microfone e gritou algumas palavras de ordem que costumava dizer em seu programa de rádio. O público foi ao delírio, dez mil invadiram o gramado, lançando álbuns ao ar, fazendo fogueiras e esmagando-os com os tacos de baseball roubados dos jogadores.
O resultado da noite da demolição foi a diminuição considerável das calças bocas de sino e sapatos plataforma nas ruas. Fora o medo da opressão cultural, as músicas disco que costumava ocupar 3 posições entre as dez mais tocadas há anos, viu seu número reduzido para zero no mês seguinte.
Assista ao vídeo gravado ao vivo durante a transmissão do jogo
Quem matou a música disco?
Então podemos dizer que Steve Dahl matou a música disco? Não, não é assim que funciona o mercado. A indústria fonográfica, como qualquer outra, vai aonde as vendas e os lucros estão. O evento de Dahl no Comiskey Park foi encarado mais como uma brincadeira de mau gosto do que como uma ameaça, mas os empresários da música sempre tiveram um gosto especial pela autodestruição e foram eles mesmos quem acabaram com seu negócio.
Capa de álbum de música disco
Como já foi citado anteriormente, os produtores estavam pouco interessados na qualidade das músicas, mas sim no fato de ser disco, o que já vendia por si só. Isso gerou um numero enorme de álbuns ruins no mercado, o que fez as pessoas se sentirem enganadas e pararem de comprar. Isso fez as lojas devolverem os discos para as grandes gravadoras, que se viram enterradas debaixo de milhões de cópias do lixo que eles mesmos haviam lançado no mercado. Esses álbuns jamais seriam vendidos e estoque encalhado é a receita para o desastre financeiro.
A noite da demolição disco não foi o fim da música disco, mas sim um sinal impossível de ignorar de que as pessoas já não estavam tão ligadas no estilo que dominou os anos 70. Então esse foi o fim da música disco? Seria se não fosse pelo surgimento de um jovem em sua jaqueta preta e usando luva branca em apenas uma das mãos. No fim de 1982, com a indústria fonográfica vendo seu castelo ruir, com demissões em massa e gravadoras falindo e desaparecendo, Michael Jackson veio, literalmente, para salvar o dia.
Walter Yetnikoff e Michael Jackson
Walter Yetnikoff, o homem por trás do sucesso
A despeito de toda a fama e mística em torno de Michal Jackson e, para os mais aprofundados na pesquisa, seu produtor Quincy Jones, foi Walter Yetnikoff o homem que, de fato, salvou a indústria da música com sua, digamos, técnica pouco ortodoxa de gerenciamento. Filho de imigrantes, Yetnikoff iniciou sua vida no mercado de trabalho como lixeiro e chegou ao posto mais alto da CBS, gravadora que o deixou milionário com os sucessos dos Beatles na década de 1960. Viciado em cocaína e de temperamento instável, traiu a esposa várias vezes, baniu altos diretores dos prédios da CBS para toda a vida e desrespeitava todos seus empregados, fossem secretárias ou astros como Bruce Springsteen. Certa vez, Springsteen se enfureceu com Yetnikoff em uma reunião, quando o empresário disse que seu álbum Omaha não era bom. O álbum ao qual Yetnikoff se referia era, na verdade, Nebraska.
O primeiro álbum solo de Michal Jackson, Off the Wall, vendeu mais de 8 milhões de cópias e foi um dos poucos alívios para a indústria em 1979 que, como já se percebeu, não foi um ano bom. Mas o sucesso do álbum, bem como seus lucros, se esvaiu no ano seguinte e, em 1981, a CBS teve seu pior ano, financeiramente, desde 1971. Algo drástico precisava ser feito e Yetnikoff era um homem de medidas drásticas.
Capa do disco Thriller, sem nenhum clima de terror, que só seria marca do álbum após a produção do clipe
Poucos meses antes do natal de 1982, Yetnikoff chamou Jackson e seu produtor Quincy Jones para uma reunião e deu uma ordem que só poderia vir dele: “Finalizem um novo álbum até o natal. E que seja um arrasa quarteirão!”. Naturalmente, Jackson e Jones não ficaram felizes com a pressão, mas finalizaram as mixagens do novo LP em um mês. Então Jackson voltou ao escritório de Yetnikoff com o que seria um dos maiores discos (em vendas) de todos os tempos: Thriller, e se deu o seguinte diálogo:
Michael Jackson: Consegui, eu te disse que conseguiria assim como fiz com Off the Wall.
Walter Yetnikoff: Sim! Você conseguiu, (amistosamente) você é mesmo um filho da puta!
Jackson: Walter, por favor, não use essa palavra.
Yetnikoff: Você conseguiu, você é um anjo. Arcanjo Michael.
Jackson: Assim está melhor! E agora? Você vai promover o álbum?
Yetnikoff: Sim, como um filho da puta!
Thriller não era um álbum de música disco, mas Michael Jackson trazia a alma dos anos 70 em um novo e fascinante estilo próprio que o tornaria, como já se sabe, anos mais tarde, o rei do pop. Seu novo álbum não era apenas boa música, era uma máquina de dinheiro. Todos os 7 singles alcançaram o Top 10 e uma das mais respeitadas métricas de vendas, a lista da Billboard, teve Thriller por 37 semanas em primeiro lugar. Até hoje, é um dos álbuns mais vendidos da história em todo o mundo.
Um dos publicitários envolvidos na campanha de divulgação de Thriller disse: “De repente a indústria da música estava viva novamente e era como se Thriller fosse Moisés, abrindo o Mar Vermelho e levando muitos consigo. Yetnikoff se tornou mais poderoso do que nunca”.
Assista ao vídeo com a primeira apresentação ao vivo onde Michael Jackson fez seu passo de dança mais famoso: Moonwalk
Música na televisão
Michael Jackson salvou o dia, mas quem salvaria a música? Simultaneamente ao sucesso de Miachael Jackson, um canal de TV a cabo que tocava clipes musicais o dia todo e estava transformando músicos medíocres em grandes estrelas. A música e, principalmente, as performances de Jackson se encaixariam perfeitamente na nova sensação chamada MTV, mas havia um novo problema velho: A MTV não tocava clipes de músicos negros.
Miles Davis e Stevie Wonder reclamavam publicamente da política de segregação da empresa que, segundo Wonder, “…está levando os negros de volta, 400 anos no passado!”. Nenhum executivo da MTV jamais comentou sobre isso publicamente, mas um VJ, J. J. Jackson, por acaso o único empregado negro do canal, disse a Miles Davis, em uma festa, que o formato do canal era o rock e que a maioria das estações de rock também não tocavam músicas de artistas negros a não ser de Jimi Hendrix.
Mais uma vez, quem empurrou a carreira de Michael Jackson, por baixo dos panos, foi Yetnikoff, que usou sua influência junto ao homem mais poderoso da CBS, Bill Paley, que ligou para a MTV e disse: “Ou o clipe de Billie Jean está no ar até o fim do dia ou a CBS não fará mais negócios com a MTV”. Pronto, uma conversa que mudou a imagem do mundo da música na TV.
Os criadores da MTV se apressaram em oferecer um acordo para as grandes gravadoras. Esse acordo consistia em tocar os clipes, mostrar o nome da música, do artista, do álbum e, novidade, da gravadora, algo que não acontecia nas rádios. O que queriam em troca? Direitos autorais de graça, só isso! As gravadoras espernearam, mas até o mais cético dos empresários milionários se rendeu ao ver a até então desconhecida banda, Duran Duran, se transformar em um sucesso estrondoso de vendas apenas por seus clipes no canal. Além disso, por conta de todo o prejuízo das gravadoras com o fim da música disco, os empresários não estavam em posição de exigir, era pegar ou largar.
Logo em seguida veio o clip da música Thriller, que foi um divisor de águas na qualidade da produção dos vídeos, empurrando o limite para o alto, sendo seguido por Prince, Bruce Springsteen e outros grandes nomes, inclusive uma jovem iniciante chamada Madonna.
Os músicos, as grandes estrelas do show, eram grandes novamente e tinham poder para negociar ótimos contratos, mas as grandes gravadoras queriam seu pedaço do bolo e não estavam exatamente felizes por ceder os direitos autorais para a MTV sem ganhar um caminhão de dinheiro por isso. De qualquer maneira, o caminhão da fortuna estava na pista, rolando livre e solto, só lhe faltava um motor que o trouxesse para as mãos dos habilidosos motoristas da indústria fonográfica. Esse motor surgiu logo em seguida, mas esse é o assunto do próximo artigo.
Assista ao vídeo clipe completo da música Thriller
Cenas do próximo artigo
Se Michael Jackson salvou o dia e a MTV salvou a música, um pedaço de plástico brilhante seria o motor que salvaria a indústria e transformaria, de fato, todos os envolvidos em milionários cegos pelo poder. No próximo artigo: O CD e a fortuna sem precedentes.








Isso dava um podcast…opa! Isso já existe! rs
Massa!
Muito bom!
T+ topeira.
Muito Bom msm…
Sobre a MTV…vejam só qual era a opnião dos Dead Kennedys nos tempos que a emissora surgiu…
Q post mto bem feito.
Gostei muito.
A ganância sempre falando mais alto!
Que nada, espera chegar a parte do CD e você vai ver o que é ganância (:
Muito bom o resumo, grazie
Quando sai a parte 2?
A parte 2 será publicada no mês de Dezembro, provavelmente entre os dias 7 e 15. Abraço e obrigado por prestigiar nossas colunas
Bicho, muito boa a matéria estou ansioso pela segunda parte!! Assunto muito interessante e nós podemos entender porque hoje em dia só ligamos o rádio e a tv e só escutamos lixo tocando!!
Parabéns pelo trabalho elaborado, excelente
Continue fazendo mais
Alexandre
Para mim este Steve Dahl foi um tremendo babaca, discordo totalmente dele.
Olá, artigo muito bem escrito, parabéns. Gostaria de poder ler a parte 2 pois esse tema tem muito a ver com o meu TCC.
Em breve farei um programa em áudio só sobre esse tema, aguarde!