Música Histórica

23 de janeiro de 2011

Scott Joplin: It’s Ragtime time!

Inaugurando mais uma coluna em nosso site: Música Histórica!

Aqui vamos citar artistas, estilos ou canções que marcaram sua época e, de alguma forma, influenciaram comportamentos e pensamentos. E como todos nós sabemos, são essas mudanças que escrevem as páginas mais bonitas da História, longe das guerras glorificadas ou dos heróis que escreveram seu nome com sangue nas páginas que lemos hoje em dia. E para começar em grande estilo, vamos falar sobre o imortal Scott Joplin! Quem? Não, não deixe sua mente associar com Janis Joplin, por favor!

Scott Joplin iniciando na música

Scott JoplinScott Joplin foi um compositor que nasceu e viveu nos Estados Unidos, entre a segunda metade do século XIX e o inicio do século XX. Junto com outros músicos , Joplin não criou, mas solidificou um novo estilo musical, o Ragtime.

“Mas que diabos? Scott quem? Rag o que?”, deve estar se perguntando o querido leitor que não está acostumado com esses nomes mas vai se surpreender quando notar que eles fazem parte da sua vida e você nem sabia.

Scott Joplin era negro e nasceu logo após o fim da Guerra Civil Americana, quando o regime de escravidão foi “oficialmente” abolido nos Estados Unidos ou, ao menos, se tornou ilegal. Filho de pais pobres, Joplin aprendeu a tocar piano na casa onde sua mãe trabalhava como faxineira. Sua dedicação e talento chamou a atenção de um professor de música, Julius Weiss, alemão que se mudou para os Estados Unidos e “adotou” Joplin como aluno, ensinando-o música popular e erudita durante cinco anos sem cobrar valor algum. É válido citar esse fato pois Joplin, depois de se tornar famoso, jamais esqueceu o que Weiss fez por ele e lhe enviou dinheiro até o dia de sua morte.

Mesmo com a “abolição” da escravatura, era demasiada pretensão, quase insolência, um negro sonhar em fazer sucesso como músico entre a população branca dos Estados Unidos no final do século XIX, mas Joplin não ficou famoso por se preocupar com diferenças raciais. Ele gostava de compor e tocar, era isso que fazia e fazia muito bem.

O que é Ragtime?

Partindo do princípio que me diz que nem todos sabem o que é Ragtime, cabem aqui algumas explicações. O Ragtime é um estilo musical que mistura melodias levemente eruditas com uma influência marcante da música africana em seu ritmo sincopado (desigual), fora dos padrões para a época. Você pode até não saber, mas já ouviu muito Ragtime. E digo mais: Você ouviu, gostou e, se não dançou, ao menos bateu o pezinho, curtindo o balanço que caracteriza o estilo.

Em tempo: Rag é a forma comprimida de ragged, que significa, traduzindo para o sentido correto, desigual. É uma menção clara ao elemento que marca o estilo: O tempo desigual ou, em linguagem musical, sincopado.

O Ragtime fez muito sucesso até a década de 20 do século XX, quando caiu na obsolescência devido ao crescimento do jazz no gosto da população estadunidense. Vale lembrar que o jazz era, no início, praticamente uma vertente do ragtime, que se diferenciou e tomou seu rumo próprio graças às influências do blues.

Mesmo sendo engolido pela onda do jazz, o ragtime sempre é lembrado e, volta e meia, ressurge em alguma obra como referência e, assim, nunca morre ou fica totalmente esquecido.

Sucesso e influencia cultural

Pianola

Pianola (Player Piano), quase sempre associada ao Ragtime em filmes

Nos Estados Unidos do século XIX e início do século XX, negros e brancos não se misturavam (antes fosse só lá). Um tolerava a presença do outro, mas era uma tolerância hostil que nenhuma das duas partes queria ou fazia algum esforço para torná-la menos desagradável.

Com o fim da escravatura, músicos negros começaram a publicar suas obras. Scott Joplin foi um desses e suas músicas eram especialmente dançantes, já que ele havia se tornado um músico de bailes e bares e trouxe essa influência “da noite” para suas obras. Seus ragtimes rapidamente caíram no gosto da população negra e, por serem obras já publicadas, ficaram conhecidas pelos brancos que, meio a contragosto, admitiram que era algo válido.

A maior contribuição de Joplin e seus companheiros, além da vasta obra musical que deixaram, foi o inicio da filosofia de tolerância que, inconscientemente, ajudaram a desenvolver. As canções de Joplin eram muito solicitadas e ele passou a ter mais trabalho do que jamais havia sonhado. Todavia, músicos negros tocavam para o público negro, mas tamanha foi a pressão da população branca, que alguns donos de casas de shows para brancos, contrataram Joplin e o exemplo foi copiado. Era o poder das verdinhas que deixava os brancos “menos intolerantes” com os negros.

Ironias à parte, é um legado que vale a pena citar e exaltar.

Vamos ouvir Ragtime

Como citado anteriormente, garanto que você já ouviu, mas deixo aqui alguns vídeos de canções gravadas pelo próprio Joplin, bem como referências em obras para TV e Cinema.

Primeiro, para dar um fim ao mistério do “Mas que diabos é Ragtime?”, um filme que todos conhecem (ou deviam conhecer). O título original é The Sting, lançado oficialmente em 1973, com Robert Redford e Paul Newman no elenco. O filme veio para o Brasil com o título de Um Golpe de Mestre e, além de ganhar vário s prêmios extremamente relevantes no mundo do cinema, foi o responsável por uma das ondas de saudosismo que trouxeram o Ragtime de volta aos lares estadunidenses. Note que toda a trilha sonora é composta por Ragtimes, incluindo a imortal e impossível de não reconhecer, The Entertainer, composição de nosso amigo Scott Joplin.

Aqui vai uma composta e gravada pelo próprio Joplin, trata-se de The Easy Winner. Fato curioso é que a canção foi gravada com uma versão simplificada da partitura original e não há explicação para isso. Alguns anos após a morte de Joplin, ela seria publicada como foi escrita. Aqui você confere a versão simplificada, muito boa para sentir o ritmo cativante dos Ragtimes clássicos.

Já citada acima, The Entertainer é, mundialmente, a música mais famosa, não só de Joplin, como do estilo Ragtime. Trilha de incontáveis comerciais de TV e Rádio, filmes, documentários, etc… É praticamente um símbolo de uma época, pois você não consegue ouvir e não imaginar o velho saloon. Aqui está a versão utilizada no filme The Sting, com arranjo mais moderno e elaborado.

Uma referência inusitada aos que desconhecem o poder de romper barreiras que uma música pode ter. Os torcedores do clube italiano de futebol, AC Milan, cantam: Siam venuti fin qua per vedere segnare Kaka (algo como: Nós viemos aqui para ver o Kaká marcar, em homenagem ao jogador brasileiro). Você já ouviu essa melodia em algum lugar?

E pra fechar com chave de ouro, o desenho animado que moldou o caráter de uma geração (?!). Quem nunca assitiu pelo menos um pedacinho do Pica-Pau? Ah, agora você está ligando o nome Ragtime a algo que lhe desperta a nostalgia, não é? Nesse vídeo temos uma das versões de abertura favoritas deste que vos escreve, num arranjo que é um misto de jazz clássico com ragtime moderno, mostrando, mais uma vez, que os dois estilos já se confundiram um dia. Durante o episódio (logo no início, não precisa assistir tudo), nosso querido pássaro se exibe para a bela morena ao piano, gastando toda sua habilidade num Ragtime agitado.

E, antes que você pergunte, já confirmo: Sim! 99% das músicas que tocavam naquelas pianolas de rolo eram Ragtimes!

Espero que todos tenham gostado e aprendido algo novo. Aguardo suas opiniões e sugestões. Um abraço e até a próxima!



Sobre o autor deste post

Gabriel Perboni
Gabriel Perboni é autodidata por natureza e músico por teimosia. Apaixonado pela História, pratica a pesquisa e a produção de conhecimento por hábito. É o fundador e editor-chefe do Histórica.




 
 

 
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  1. Caramba….

    Jamais poderia imaginar tudo isso, tanto o nome do ritmo quanto o seu criador.. Essa musiquinha.. Dificil quem não conheça ela..

    Muito bom saber disso.. Agora posso me exibir com as garotas quando ouvir essa musica e explicar tudo que Li e "Aprendi" aqui no Visão Historica..rsrsrs

    Obrigado por me ajudar nos Xavecos..hahaha


    • Eu acho que a probabilidade de tocar Ragtime na balada é bem baixa (:

      De qualquer forma, só pra deixar claro, Scott Joplin é o nome mais expressivo para esse tipo de música mas não é o criador do estilo.

      Abraço


  2. Parabéns para Julius Weiss por ter acreditado, e por Scott Joplin por ter dado o valor merecido ao mestre, valor convertido em talento, dedicação e garra.

    Realmente eu não tinha idéia sobre a existência do músico, isso acaba sendo uma bela homenagem e também um exemplo de perseverança, a história do personagem é cheia de acontecimentos, mostrando a capacidade do ser humano em superar seus desafios.

    Fato interessante é que: mesmo sem saber o que ouvimos, gostamos e nem ao menos nos interessamos, uma vez escutei alguém dizer que são artistas realizando suas apresentações atrás das cortinas, pelo menos neste século.

    Estranho não é verdade? Quem assistiu Pica Pau e disse: não gostei!Ou disse que era chato?Alguém que comentou sobre a música de fundo? Eu nunca soube.

    É uma ótima dica para estarmos sempre em alerta aos talentos e obras interessantes que muitas vezes distraídos deixamos de apreciar.

    Parabéns a equipe do: historica.com. br.


  3. literatura e musica, a questão e que a historia se basea somente em guerras e conquistas, muito boa esta coluna quero saber se vocês ainda vao me surpreender mais, pois a historia a cada dia que passo acampado no historica se torna menos escola publica para ser bem interessante.


    • A nossa “missão” é fazer com que todos que entrem aqui, saiam com vontade de pesquisar mais sobre os assuntos apresentados!

      Sobre guerras, infelizmente são elas que moldam o mundo, politicamente falando, claro. Mas, apesar disso, existe muita coisa que influi na formação cultural dos povos e música, sem sombra de dúvida, é uma das expressões mais fortes desse “poder mutante não bélico”.

      Abraço!


  4. Ivan

    Quer beleza de post, adiei alguns dias para ler, e fiz muito bem pois pude ler e ouvir com calma, e aprender coisas muito interessantes sobre uma música que sempre ouvi e nunca soube o que era, eu achava que ragtime tinha a ver com reggae, e o estilo dessas músicas do post fossem Cancã. Será que vem um post sobre chorinho por aí? ;)


    • Obrigado!

      Com a cultura do “texto curto, conteúdo nulo” que vemos hoje em dia, é extremamente gratificante ouvir alguém dizer “…ler com calma para aproveitar melhor…”

      E não se preocupe, falarei sobre Choro e outros movimentos brasileiros, em breve!

      Abraço!


  5. Juliozales

    Cara, eu tb achei que tivesse algo a ver com reggae, achei que iam falar sobre a origem lá na jamaica, essas coisas.

    Meu, eu sempre comento com um amigo, sobre alguns rocks que lembram Ragtime (pelo menos a introdução), mas que a gente não sabia dar nome ao estilo em questão, então a gente dizia que tal música parecia com aquelas músicas de cabaré….(!!!!).
    Bom, agora não mais !

    Existem vários rocks bons assim, pena que eu nao vou conseguir me lembrar, talvez Eric Clapton – How Long Blues seja um bom exemplo. http://www.youtube.com/watch?v=dO4Gt9hRjbA

    Eu sempre gostei muito de Boogie woogie no piano, que pelo visto, foi uma variação do Ragtime.

    A coluna começou muito bem Topera!

    A propósito, se estiver aí na fila, uma matéria sobre Rolling Stones, pode contar comigo como colaborador……sou quase um PHD neles. (só sou muito ruim com nomes…rs)


    • Em tempo: O Boogie-Woogie não tem uma origem conhecida. O que posso dizer é que ele surgiu bem antes do sucesso que teve nas décadas de 1930 e 1940. Quanto a ser uma variação de Ragtime, talvez seja. Como eu disse na coluna, o Ragtime e o Jazz por muito tempo se confundiram e no fim, tudo tem origem na “estrutura” do blues, assim como o Boogie-Woogie.

      Essa coleção de Rolling Stones pode ser sorteada entre os leitores? (:

      Abraço!


  6. Phillipe Forte

    Quando fazia aula de musica. Tinha historia e aprendi sobre esse cara. Ficava pensando "um negro naquela época fazer sucesso". :o


  7. henrique

    O segundo vídeo me lembra muito, muito mesmo, o tema do Mario!


    • Durante a fase inicial da produção do artigo, haviam músicas dos jogos antigos do Super Mario, mas acabaram ficando de fora na corte final da edição pois não achei uma versão com boa qualidade. Sem sombra de dúvida, o compositor bebeu dessa fonte!

      Abraço!



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